A discussão em torno da fiscalidade dos planos de pensões individuais voltou a ganhar destaque no cenário econômico, em grande parte devido a uma realidade que é difícil de ignorar: um contribuinte com a mesma renda e hábitos de poupança pode acabar pagando dezenas de milhares de euros a mais em impostos, dependendo da região onde tributa. A recente reforma aprovada em Bizkaia, que terá efeitos a partir do exercício de 2026, reavivou uma comparação incômoda com o regime fiscal geral, especialmente num momento em que a sustentabilidade do sistema público de pensões e o incentivo à poupança complementar se tornaram questões estruturais.
A crescente pressão sobre os gastos com pensões na Espanha, resultante do aumento do número de prestações e da tensão entre receitas de contribuições e transferências estatais, faz com que os incentivos à poupança previdencial e seu desenho fiscal não sejam meros detalhes técnicos. Eles podem afetar diretamente a capacidade da classe média de construir um “segundo pilar” de aposentadoria.
No atual contexto, existem dois modelos fiscais em jogo: o “limite baixo” do regime geral e o “limite alto” aplicado em Bizkaia. No regime geral do IRPF (Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas), as reduções por contribuições a planos de pensões individuais foram restringidas nos últimos anos a níveis que muitos consultores consideram pouco atraentes. Em contrapartida, a normativa foral de Bizkaia se destaca por oferecer um tratamento mais favorável em duas áreas principais: um limite anual de contribuição com direito a redução que é significativamente mais elevado e uma abordagem em relação ao resgate das pensões que pode resultar em uma carga tributária mais eficiente em determinados casos.
A discussão não se limita a saber se deve ou não haver um incentivo à poupança. O cerne da questão é por que contribuintes com perfis financeiros idênticos recebem tratamentos fiscais tão diferentes, e quais as implicações disso sobre decisões de poupança, mobilidade fiscal e percepção de equidade.
Um exemplo frequentemente citado em meio a esse debate ilustra a discrepância potencialmente significativa que pode surgir entre dois cenários: um contribuinte com um salário anual de 28.000 euros que aporta 5.000 euros anualmente durante 25 anos, resultando em um capital final estimado de 250.000 euros. A diferença entre os tratamentos fiscais nos dois regimes pode chegar a aproximadamente 33.000 euros, destacando a importância dos limites de dedução e do tratamento fiscal do rendimento no momento do resgate.
Essa realidade apresenta três implicações financeiras que merecem destaque: os reais incentivos ao ahorro, a asimetria territorial e o impacto que a regulação fiscal pode ter sobre o mercado de produtos de previdência. Há uma preocupação crescente de que as regras em vigor não apenas afetam os indivíduos, mas também o design e a demanda por diferentes tipos de planos de pensões.
As diferenças fiscais têm saltado das discussões técnicas para o centro da conversa econômica mainstream, especialmente em um cenário de envelhecimento populacional e aumento do número de aposentadorias. As regras do “poupança a longo prazo” deixaram de ser um tema exclusivo de especialistas, tornando-se uma questão relevante para a sociedade como um todo.
Esta situação levanta várias questões importantes para os poupadores. O que significa realmente “renda temporal constante de pelo menos 15 anos”? Por que o limite de contribuição com incentivo fiscal é tão crítico para a classe média? E como um poupador deve proceder antes de contratar ou resgatar um plano de pensões? Todas essas questões merecem considerações cuidadosas à medida que os cidadãos enfrentam um futuro cada vez mais incerto em relação à sua aposentadoria e à sustentabilidade do sistema de pensões.






