As valorizações bursáteis relacionadas ao crescimento da inteligência artificial (IA) alcançaram índices que lembram grandes ciclos tecnológicos do passado, o que leva cinco economistas vinculados ao Banco Central Europeu (BCE) a considerar uma possível correção nos mercados financeiros. Mesmo que a tecnologia venha a atender grande parte das expectativas que atualmente justificam os investimentos, os riscos não se restringem apenas às bolsas da Europa. As famílias na zona do euro acumulam cerca de 440 bilhões de euros em exposição a grandes empresas tecnológicas americanas.
Os economistas afirmam que, embora as valorizações atuais não sejam necessariamente irracionais, a história mostra que revoluções tecnológicas costumam impulsionar períodos de crescimento seguidos de ajustes. Em um cenário que já se aproxima dos máximos históricos do S&P 500, as projeções sobre o mercado americano revelam uma valorização elevada. O indicador CAPE, que analisa as relações preço-lucro, indica que os níveis atuais se assemelham aos períodos de alta vistos no final da década de 1990.
Apesar do aumento das valorizações na zona euro, a intensidade deste crescimento é significativamente menor, devido à composição dos mercados. Enquanto as grandes empresas tecnológicas dos EUA atraem a maior parte dos investimentos em IA, as bolsas europeias ainda têm um peso maior em setores tradicionais. Exemplos como a multiplicação do valor das ações da Nvidia desde 2022 ilustram este fenômeno. No entanto, uma tecnologia que atinja as expectativas ainda pode enfrentar uma correção nos preços de suas ações.
A história já mostrou que inovações como a ferroviária no século XIX, a eletricidade e a internet nos anos 90, por exemplo, também passaram por fases de intensa valorização seguidas de uma correção drástica. Os economistas indicam que a incerteza em relação a novas tecnologias inicialmente pode afetar um número restrito de empresas, mas à medida que a tecnologia se expande e a incerteza se dispersa, o risco torna-se mais difuso, levando os investidores a exigir retornos mais altos que, eventualmente, podem pressionar as valorizações para baixo.
Os laços financeiros entre a Europa e os EUA são evidentes, uma vez que os lares europeus possuem significativa exposição, em grande parte indireta, a gigantes tecnológicas americanas, através de fundos de investimento e ETFs. A possibilidade de uma correção nos preços dessas ações pode ter impactos consequências diretas, já que os fundos de investimento podem ser forçados a vender ativos para atender aos resgates.
A análise conclui, porém, que a situação atual da Europa é menos alarmante quando comparada aos EUA. Embora as valorizações europeias estejam mais moderadas e a adoção da IA esteja em crescimento, um colapso significativo das bolsas americanas poderia influenciar negativamente a confiança do consumidor, as condições de financiamento e, até mesmo, as contratações dentro da zona do euro.
Os economistas do BCE estabelecem que, embora existam menos sinais de excesso no mercado europeu, a estreita correlação histórica com o mercado americano significa que a Europa não está a salvo de possíveis correções. A transformação que a IA traz à economia pode ser benéfica, mas a incerteza sobre o desempenho econômico real continua pairando sobre os mercados, questionando até que ponto as valorizações atuais já incorporam o potencial de crescimento futuro relacionado à tecnologia.





