O mercado de trabalho tecnológico na Espanha enfrenta, em 2026, uma paradoxo cada vez mais evidente: mesmo cargo, mesma experiência… e salários muito diferentes. Essa disparidade, que por anos foi explicada pelo tamanho das empresas ou pela diferença entre consultoria e produtos, agora é atravessada por um fator que acelera a situação: a reorganização interna das companhias em torno da Inteligência Artificial.
Essa é uma das conclusões destacadas na “Guia Salarial 2026” elaborada pela Manfred, a qual se baseia em dados de mais de 120.000 profissionais e foi ampliada com informações da Prosfy. O documento se apresenta como uma ferramenta prática para empresas e candidatos, além de funcionar como um termômetro de um setor que passou pelo “ressaca” dos ajustes de 2023-2024, seguindo para uma recuperação seletiva em 2025… e uma consolidação de tendências em 2026.
De acordo com a guia, 2025 teve um aumento na oferta e uma maior demanda por perfis sêniores, impulsionada pela nova onda de Inteligência Artificial e por empresas criadas e financiadas nos últimos anos. Contudo, essa recuperação não foi uniforme. Alguns cargos “despriorizados”, devido à realocação de orçamentos ou à confiança de que a IA ajudaria a cobrir tarefas, enfrentaram menos oportunidades e quedas salariais, com menções explícitas a Product Managers, Engineering Managers e Mobile Developers.
Para 2026, o documento prevê continuidade: enquanto novos cargos relacionados à IA (como AI Engineer e Head of AI) se consolidam, parte do mercado tradicional enfrenta um cenário mais desafiador, com pressão sobre a entrada de profissionais juniores e empresas tentando otimizar suas estruturas.
Um aspecto inovador da guia é a apresentação de salários por percentis, além de tabelas divisórias por experiência em cada cargo. Esse detalhe é crucial, pois a mediana (percentil 50) pode parecer “baixa” em cargos muito saturados — como backend ou frontend — e, portanto, o relatório recomenda a complementação com os intervalos de experiência.
No segmento de backend, a Manfred aponta um “estagnamento real”, com salários frequentemente em torno de 45.000 €, enquanto para o “top 25%” do talento mais bem pago o valor gira em torno de 65.000 €. Já no frontend, a mediana é mais próxima de 40.000 €, devido a um mercado saturado de profissionais juniores.
Por outro lado, o perfil Full-Stack se revaloriza, sendo buscado devido à dificuldade de encontrar profissionais seniores com habilidades bem desenvolvidas. A demanda por papéis híbridos cresce, assim como a valorização de expertises relacionadas à IA.
Apesar do crescimento na demanda por posições ligadas à IA e à análise de dados, o documento também destaca a pressão salarial em áreas como Mobile e QA, onde a saturação do mercado resultou em quedas salariais. No entanto, cargos críticos como SRE/DevOps mostram uma clara progressão salarial.
A guia também observou um fator crescente: a presença física nas empresas, que pode aumentar os salários em pelo menos 20%, já que muitos profissionais preferem condições remotas ou híbridas.
Essas dinâmicas trazem à luz um mercado de tecnologia em transformação, onde o impacto da Inteligência Artificial, a escassez de determinados perfis e as diferenças na estrutura organizacional entre empresas moldam um cenário que promete se intensificar nos próximos anos.






