A indústria de semicondutores da China está se preparando para uma nova fase de competição, ao focar seus investimentos em um componente estratégico e menos visível: os substratos de vidro. Essa tecnologia emergente promete substituir parte dos materiais orgânicos usados no empacotamento avançado de chips, uma área crucial para aumentar a eficiência dos processadores de Inteligência Artificial (IA), minimizando o consumo de energia, o calor gerado e a deformação mecânica.
Empresas como a Visionox, líder na fabricação de displays, já estão alinhando investimentos para desenvolver uma cadeia de suprimentos dedicada a essa nova abordagem. Além dela, a AKM Meadville, fabricante chinesa de placas de circuito impresso (PCB), está montando uma linha piloto para a produção de substratos de vidro. Por sua vez, a Tongfu Microelectronics, que atua na montagem e testes de chips, está criando uma rede de fornecedores para garantir sua posição nesse mercado estratégico, onde o empacotamento se tornará tão crucial quanto o próprio silício.
A convergência de empresas de diferentes setores — displays, PCB e serviços de montagem — indica que a competição pela próxima geração de chips de IA não se limitará apenas às técnicas de fabricação, mas também se estenderá à escolha de materiais e a conectividade dos chips. O substrato de vidro, devido às suas propriedades físicas, surge como uma alternativa promissora para ultrapassar as limitações que os substratos orgânicos estão começando a apresentar.
Os substratos de vidro, muitas vezes chamados de “glass core substrate”, apresentam benefícios em termos de planicidade, estabilidade térmica e controle de deformações, aspectos essenciais para chips que exigem interconexões mais finas e áreas de empacotamento maiores. No entanto, sua adoção é desafiada por questões de produção, como o risco de microfissuras e a complexidade nos processos de manuseio, perfuração e metalização.
Com o aumento da demanda por chips mais complexos e avançados, impulsionados pela IA, o mercado busca soluções que possam incrementar a densidade e a confiabilidade sem inflacionar os custos. Nesse cenário, as iniciativas da Visionox, AKM Meadville e Tongfu Microelectronics destacam-se não como meras tentativas de participação, mas como um esforço coordenado para controlar uma nova parte da cadeia de valor.
A concorrência, no entanto, não se limita à China. Os países como Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Estados Unidos já estão investindo pesadamente nesta tecnologia. Empresas como a Samsung Electro-Mechanics e a LG Innotek na Coreia do Sul, e a DNP no Japão, já estão realizando avanços significativos no desenvolvimento de substâncias de vidro. Esse panorama revela um mercado global dinâmico desde o início, onde as questões de soberania tecnológica e a pressão por industrializar rapidamente sem sacrificar a fiabilidade se tornam cada vez mais prementes.
O principal desafio permanece: não se trata apenas de determinar se o vidro “funciona” em laboratório, mas se a sua produção pode escalar de maneira econômica e consistente. A entrada de players chineses pode acelerar essa competição, forçando concorrentes globais a aumentar investimentos e reduzir custos rapidamente. Assim, o substrato de vidro se consolida como um front estratégico na corrida para dominar o futuro do empacotamento de chips, especialmente em um mercado cada vez mais voltado para a inteligência artificial.




