Europa tem discutido a soberania financeira há anos, mas o debate começa a se materializar em aspectos cotidianos, como o pagamento de uma compra, uma refeição, uma assinatura ou uma transferência de dinheiro entre pessoas. Nesse contexto, Wero, a solução promovida pela European Payments Initiative (EPI), surge como uma das iniciativas mais ambiciosas para reduzir a dependência europeia das redes internacionais de cartões e dos grandes wallets digitais dos Estados Unidos.
O objetivo não é que Visa e Mastercard desapareçam da Europa de uma hora para outra. Essas empresas continuam a ter uma aceitação significativa, uma infraestrutura bem estabelecida e uma experiência de usuário consolidada. No entanto, Wero representa uma mudança de direção: pagamentos instantâneos de conta a conta, sob uma marca europeia, com bancos europeus por trás, com a intenção de atender pagamentos entre pessoas, comércio eletrônico e vendas em pontos físicos.
O momento é crucial, pois os pagamentos digitais deixaram de ser apenas um serviço financeiro, tornando-se uma infraestrutura econômica. O controle da experiência de pagamento implica controle sobre comissões, dados, relações com comerciantes, padrões técnicos e uma parte da dependência estratégica do continente. Por isso, o Banco Central Europeu tem ressaltado a necessidade de sistemas de pagamento mais autônomos e resilientes na Europa.
Wero se destaca como uma carteira digital europeia que utiliza pagamentos instantâneos de conta a conta. Em vez de encaminhar uma operação pelos circuitos tradicionais de cartões, o dinheiro é transferido diretamente da conta bancária do comprador para a do recebedor ou comércio, apoiando-se nas transferências instantâneas SEPA e em uma camada de experiência de usuário desenvolvida pela EPI.
Atualmente, a plataforma opera em Bélgica, França e Alemanha, e já conta com mais de 50 milhões de usuários. Em 2026, Wero irá expandir seus serviços para incluir pagamentos em comércio eletrônico e novas funcionalidades, além de preparar a migração de sistemas nacionais, como Payconiq em Luxemburgo e iDEAL nos Países Baixos.
A diferença em relação ao uso de cartões não é apenas técnica. Para os comerciantes, o pagamento de conta a conta pode reduzir a quantidade de intermediários e oferecer custos mais previsíveis. Para os bancos, representa uma oportunidade de recuperar protagonismo numa camada que foi dominada por redes globais, wallets de grandes tecnologias e prestadores de serviços de pagamento internacionais. Para os reguladores europeus, fortalece a autonomia de uma infraestrutura essencial.
Além disso, Wero não avança sozinho. A EPI firmou um memorando de entendimento com Bancomat, Bizum, SIBS MB WAY e Vipps MobilePay para acelerar a interoperabilidade entre soluções europeias de pagamento. Essa colaboração é significativa, especialmente para a Espanha, uma vez que Bizum, com mais de 30 milhões de usuários, é uma das soluções nacionais mais bem-sucedidas da Europa.
A aliança busca conectar sistemas com ampla adoção em seus mercados nacionais, criando uma rede comum para pagamentos transfronteiriços. O objetivo é facilitar que um usuário em um país europeu possa realizar pagamentos ou enviar dinheiro em outros países, mantendo uma experiência semelhante à já utilizada em seu banco local.
A perspectiva de integração é promissora, abrangendo 13 países e uma base combinada de cerca de 130 milhões de usuários. A proposta é capitalizar sobre hábitos de consumo já consolidados, evitando a necessidade de construir uma marca nova em todos os países, o que poderia ser um processo lento e dispendioso.
Entretanto, o desafio permanece na aceitação comercial. Um sistema de pagamentos só funcionará se for amplamente adotado por consumidores e comerciantes simultaneamente. Para um usuário, deve ser tão conveniente quanto usar cartões ou wallets digitais. Para os comerciantes, deve ser mais barato, confiável e fácil de integrar às suas operações existentes.
Em um cenário onde as tarifas de transação são uma preocupação constante, Wero promete reduzir a cadeia de custos ao promover pagamentos diretos entre contas bancárias. Isso pode ter um impacto significativo para comerciantes que trabalham com margens baixas ou altos volumes de vendas.
Embora a redução de custos seja uma das razões pelas quais Wero é interessante para o setor financeiro, também é crucial que ofereça proteção ao consumidor, padrões internacionais e uma experiência familiar. A EPI já está planejando serviços de valor agregado, como programas de fidelidade e pagamentos recorrentes, essenciais para expandir as funcionalidades de Wero e competir com soluções já estabelecidas.
A discussão em torno de Wero é frequentemente moldada por uma perspectiva de confronto com Visa e Mastercard. Contudo, a verdadeira intenção da Europa não é erradicar essas redes internacionais, mas sim desenvolver uma infraestrutura de pagamentos que não dependa delas. A autonomia em pagamentos significa que a Europa pode gerenciar transações essenciais sob suas próprias regras e padrões, garantindo que bancos, comerciantes e consumidores tenham alternativas confiáveis frente a possíveis mudanças nas condições impostas por redes internacionais.
A ambição do euro digital, um projeto do Banco Central Europeu que visa complementar o dinheiro em espécie, se alinha a essa necessidade de autonomia. Wero, sendo uma iniciativa privada dos bancos, oferece uma alternativa comercial que também busca resolver o problema de dependência, mas a partir de serviços de pagamento interoperáveis.
Ainda assim, a jornada de Wero está longe de ser concluída. A plataforma precisa completar a migração de iDEAL, escalar suas operações no comércio eletrônico, expandir para pontos de venda físicos e conectar várias soluções nacionais. Também necessita convencer comerciantes sobre suas vantagens e garantir uma experiência de usuário fluida.
A competição continuará a ser acirrada, com jogadores estabelecidos como Visa e Mastercard investindo em inovação e melhorias nos serviços. Assim, o sucesso de Wero dependerá não apenas do discurso de soberania, mas da efetividade da experiência do usuário. Se os consumidores encontrarem facilidade em usar Wero em lojas online e físicas, a aceitação poderá crescer.
Com a evolução do cenário de pagamentos digitais na Europa, Wero tem a chance de ser mais do que uma mera app de pagamentos: pode representar um movimento significativo em direção a uma infraestrutura financeira mais autônoma.






