A corrida pela computação em Inteligência Artificial (IA) não se dá mais apenas em terra, entre fábricas de chips e megacentros de dados. Uma nova geração de empresas está tentando abrir um novo fronte: a órbita baixa. Nesse contexto, a startup Starcloud apresentou um plano ambicioso e desafiador: implantar hardware da AWS Outposts no espaço e, a longo prazo, construir uma constelação de até 88.000 satélites voltados para cargas de computação.
A proposta não é vista apenas como um experimento curioso, mas sim como um reflexo de um mercado onde o gargalo já não é apenas a potência de cálculo, mas também como e onde essa potência é alimentada, refrigerada e escalada, sem que a infraestrutura terrestre – incluindo energia, permissões e redes – se torne um limitante. A promessa da computação orbital visa aproveitar vantagens físicas evidentes, como a disponibilidade de energia solar e a refrigeração por radiação. No entanto, a transição de uma demonstração para uma frota massiva ainda apresenta desafios técnicos, econômicos e regulatórios.
A AWS Outposts, em essência, é a AWS “na sua casa”: racks e servidores gerenciados pela Amazon Web Services que operam próximos dos dados, oferecendo uma experiência semelhante à nuvem em ambientes locais. A estratégia por trás da “Outposts em órbita” é clara: se a computação está se movendo para a borda (edge), essa borda pode literalmente se tornar o espaço. Para cargas de trabalho que geram dados longe dos centros de dados, processar no espaço pode reduzir o volume de dados a serem enviados para a Terra e acelerar as decisões.
Starcloud não surgiu com essa ideia do nada; a empresa tem buscado validar, passo a passo, que é possível realizar computação de alto desempenho em condições orbitais. Em novembro de 2025, a startup lançou um satélite com uma GPU NVIDIA H100, realizando testes de execução de modelos de linguagem em órbita. Esses marcos demonstram a viabilidade básica (energia, dissipação térmica, telemetria, estabilidade), mas não respondem à questão crítica: se esse modelo poderá escalar de forma confiável e com custos aceitáveis.
A ambição de uma constelação de até 88.000 satélites destaca a transição de uma ideia experimental para um projeto de grande escala, envolvendo desafios como design industrial, logística de lançamentos e regulamentações sobre saturação orbital. Embora a computação orbital ofereça vantagens significativas, como acesso contínuo à energia solar e soluções inovadoras de refrigeração, os riscos não podem ser ignorados. Fiabilidade, segurança e regulamentação serão questões cruciais à medida que a ideia avança.
O anúncio da Starcloud não é uma simples curiosidade, mas sim um marco que pode transformar o setor. A computação em órbita pode abrir novas perspectivas em um mundo onde a demanda por computação continua crescendo. A implementação de uma camada de computação padronizada pode levar a implantação de aplicações em locais considerados extremos, exigindo uma nova abordagem em termos de segurança e manutenção na infraestrutura.
Essa visão de centros de dados orbitais não é apenas futurista, mas sinaliza uma mudança iminente em como a computação pode ser concebida e realizada, refletindo a busca incessante por redução de custos em energia e infraestrutura, à medida que avançamos para uma nova era na computação.






