O Afeganistão, sob o regime do Talibã, continua a ser o único país no mundo onde meninas e mulheres são impedidas de acessar a educação, tanto no ensino médio quanto no superior. Comemorando cinco anos desde a retomada do poder pelas autoridades de fato, diversas agências das Nações Unidas expressaram sua alarmante preocupação com os efeitos devastadores sobre a população feminina.
Desde a ascensão do Talibã, estima-se que mais de 2,6 milhões de meninas afegãs deixaram de frequentar a escola. Catherine Russell, diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), ressalta que, embora cinco anos sejam um período relativamente curto na história de um país, é um momento decisivo na vida de uma menina. A sala de aula, segundo Russell, não é só um lugar para aprendizado, mas também um “escudo” contra o trabalho infantil, casamentos precoces, violência e abuso. Com as escolas fechadas, essa proteção se esvaiu.
Além disso, a situação torna-se mais crítica com o aumento da pobreza e do deslocamento forçado em todo o país. Uma análise do Unicef aponta que o Afeganistão pode perder até 20 mil professoras e 5,4 mil profissionais de saúde até 2030. Os dados revelam que o número de professoras na educação básica caiu mais de 9% nos últimos dois anos, enquanto a representação feminina no serviço público diminuiu de 21% para 17,7%.
Em uma declaração recente, um grupo de 23 relatores especiais de direitos humanos da ONU denunciou que as crianças do Afeganistão estão crescendo em um ambiente que normaliza a discriminação e a violência. O Talibã intensificou sua repressão institucionalizada baseada em gênero, com medidas que permitem a violência contra mulheres, desde que não causem ferimentos visíveis. Um decreto sobre a separação de cônjuges também foi criado, o que implica a aceitação do casamento infantil e dificulta a fuga de mulheres e meninas de uniões abusivas.
Os relatores da ONU caracterizam o sistema de discriminação e opressão estabelecido no Afeganistão como um “apartheid de gênero” e pedem que os Estados-membros da ONU ajudem a codificar essa discriminação como um crime contra a humanidade. Eles alertam que normalizar um regime que persegue sistematicamente a metade da população legitima a opressão e solicitam ao Tribunal Penal Internacional intervenções mais eficazes para lidar com a situação crítica no país.
Origem: Nações Unidas






