Nos últimos anos, a China tem experimentado uma mudança significativa em sua estratégia de reservas internacionais, reduzindo sua exposição à dívida pública dos Estados Unidos, enquanto aumenta suas reservas de ouro. Esse movimento, que se consolidou ao longo de mais de uma década, foi destacado por novos dados até maio de 2026, que revelam que a China detinha cerca de 659,3 bilhões de dólares em títulos do Tesouro americano, aproximadamente metade do que possuía em seu pico de 2013.
O Banco Popular da China (PBoC) também anunciou um aumento significativo nas suas reservas de ouro, que atingiram 2.346 toneladas em junho de 2026. Este aumento representa uma continuidade de 20 meses consecutivos de compras de ouro, totalizando cerca de 82 toneladas nesse período. A estratégia de diversificação na composição das reservas parece estar se intensificando, embora não indique que a China esteja vendendo seus títulos do Tesouro diretamente para adquirir ouro.
As estatísticas do Departamento do Tesouro dos EUA revelam uma queda não apenas na quantidade de títulos, mas também nas preocupações geopolíticas em torno das reservas. A invasão russa da Ucrânia, por exemplo, reacendeu discussões sobre o risco de sanções que poderiam afetar ativos financeiros mantidos em jurisdições estrangeiras. Embora a redução das posições chinesas em dívida dos EUA tenha começado muito antes desse evento, a nova dinâmica internacional incentivou reflexões sobre a segurança das reservas soberanas.
A aquisição de ouro é vista como uma alternativa com menor risco de crédito, já que se trata de um ativo físico que não depende do cumprimento de um emissor, como ocorre com os Treasuries americanos. No entanto, apesar do crescimento das reservas de ouro, o dólar americano mantém uma posição dominante nas finanças globais, com os títulos do Tesouro ainda considerados um dos ativos mais seguros e líquidos do mundo.
Em um contexto mais amplo, o apetite global por ouro também é notável, com os bancos centrais em todo o mundo adquirindo aproximadamente 1.000 toneladas de ouro anualmente nos últimos quatro anos, o dobro da média da década anterior. Apesar disso, a afirmação de que o mundo está prestes a se afastar do dólar pode ser prematura. O sistema financeiro internacional ainda se apoia fortemente na moeda americana, mesmo com a crescente diversificação das reservas, especialmente entre economias emergentes.
A tendência de diversificação das reservas não deve ser vista como um movimento para desestabilizar o domínio do dólar, mas sim como uma estratégia prudente de gestão de riscos. A China continua a manter grandes quantidades de ativos em dólares e a desenvolver a infraestrutura necessária para expandir o uso internacional de sua moeda, o yuan. Recentemente, o país também deu passos para fortalecer o papel de Hong Kong como um hub de mercado de ouro, facilitando a entrega física do metal precioso entre o território e a Shanghai Gold Exchange.
Esse panorama sugere que a evolução das reservas da China não está apenas relacionada a uma substituição direta entre Treasuries e ouro, mas a uma maior conscientização e adaptação às complexidades das interações financeiras globais. A fotografia que emerge é mais nuançada do que a simples narrativa de um Brasil que estaria “acabando” com o dólar. A realidade é que, enquanto a China reduz sua dependência de um único tipo de ativo, ela está também aproveitando oportunidades para aumentar sua resiliência em um mundo em constante mudança.





