Virginia, considerada o grande “motor” mundial de centros de dados, está à beira de um acalorado debate que envolve questões fiscais, energéticas e políticas. As duas câmaras da Assembleia Geral do estado, o Senado e a Câmara de Delegados, aprovaram orçamentos concorrentes que confrontam a questão da isenção do imposto sobre vendas e uso para equipamentos e softwares relacionados a centros de dados. Este incentivo atualmente possibilita que o setor evite um imposto estadual de 5,3%, que pode chegar até 7% em algumas localidades devido a encargos locais.
O Senado propôs a eliminação da isenção a partir de 1º de janeiro de 2027, enquanto a Câmara de Delegados optou por mantê-la, mas sob uma condição que pode alterar drasticamente o cenário: exigir que os centros de dados apresentem “credenciais verdes” para continuar a usufruir do benefício e ampliar sua validade até 2050, em vez de sua atual expiração em 2035. Com essas duas propostas sobre a mesa, o resultado final dependerá de negociações urgentes para que um orçamento unificado seja enviado à governadora Abigail Spanberger.
A isenção fiscal é vista como uma ferramenta crucial para o desenvolvimento dos centros de dados, permitindo que operadores não paguem impostos sobre servidores, roteadores e softwares essenciais. Contudo, o debate ultrapassa a discussão sobre descontos setoriais e se transforma em uma questão de orçamento abrangente. O Senado estima que abolir a isenção traria 317,1 milhões de dólares a mais para os cofres do estado, que poderiam ser destinados a medidas de “alívio” para os contribuintes, como cheques de devolução.
A Câmara, por sua vez, decidiu não alterar o incentivo, reconhecendo o crescimento significativo dos centros de dados na região, especialmente no norte da Virgínia, onde mudanças que afetem investimentos ou empregos poderiam resultar em repercussões eleitorais. No entanto, mesmo na Câmara, há um consenso de que o setor precisa aceitar mais regulamentações, mudando a questão de “se” haverá regulação para “como” implementá-la sem comprometer a competitividade do estado.
Entre as novas propostas, destaca-se a House Bill 897, que condiciona a extensão da isenção até 2050 a exigências ambientais mais rigorosas. Os centros de dados seriam obrigados a demonstrar que ajudam a aliviar a demanda sobre a rede elétrica e diminuem a dependência de combustíveis fósseis. Entre as exigências estão limites ao uso de energia fósil e a eliminação gradual de geradores de diesel.
A necessidade de um novo arranjo regulatório é urgente, pois a crescente demanda por eletricidade dos centros de dados tem causado tensões nas redes locais e forçado investimentos em infraestrutura. Enquanto isso, a Câmara tenta abordar essa pressão com condições técnicas, enquanto o Senado se concentra no aspecto fiscal.
Virginia, que abriga o maior aglomerado de centros de dados do mundo, é um exemplo do dilema enfrentado por muitos estados em relação a incentivos fiscais, já que a retirada do benefício poderia desviar investimentos para outras regiões. A sessão legislativa atual está marcada por mais de 60 iniciativas relacionadas a centros de dados, refletindo um consenso crescente sobre a necessidade de regulamentação mais rígida.
Com a contagem regressiva a favor de um acordo legislativo, as possibilidades para o futuro podem se desenhar em três direções: a aprovação da proposta do Senado, mantendo o corte na isenção, a adoção do modelo da Câmara, que preserva a isenção com novas exigências ambientais, ou um compromisso híbrido que busque uma solução balanceada entre arrecadação e sustentabilidade.
Enquanto isso, a Virgínia, que se orgulha de ser a capital mundial dos centros de dados, enfrenta um paradoxo: seu próprio sucesso agora traz à tona questões de custos fiscais e energéticos que não podem mais ser ignoradas.






