Em um mundo onde o dinheiro circula cada vez mais por telas e redes — seja através de pagamentos móveis, transferências instantâneas ou bancos na nuvem — pode soar arcaico que um Estado mantenha lingotes físicos em cofres. No entanto, Portugal mantém uma das maiores reservas de ouro da Europa e do mundo. Neste cenário atual, o metal precioso volta a desempenhar um papel central: o de um seguro financeiro em um contexto de incertezas crescentes.
De acordo com os dados mais recentes do Conselho Mundial do Ouro, Portugal acumula 382,66 toneladas de ouro, o que o coloca como a 14ª maior reserva do planeta e uma das mais significativas da Europa Ocidental, atrás apenas de gigantes como Alemanha, Itália e França. O recente aumento expressivo no preço do ouro ampliou significativamente o valor dessa reserva, que está avaliada em cerca de 47 bilhões de euros. Isso explica por que Lisboa não vê o ouro apenas como uma curiosidade histórica.
O principal argumento, repetido por bancos centrais e analistas, é invariavelmente o mesmo: o ouro não é uma promessa de pagamento de ninguém. Ele não depende das finanças de uma empresa, da solvência de um Estado emissor ou da política monetária de uma potência estrangeira. Financeiramente, é considerado um ativo livre de risco de crédito e, portanto, geralmente se comporta como um refúgio em tempos de choques econômicos ou geopolíticos.
Esse padrão foi reforçado pelo recente rally dos preços do ouro, que atingiram máximos históricos. Em um cenário de tensões geopolíticas, busca global por ativos seguros e expectativa de mudanças nas taxas de juros, o apetite dos bancos centrais por ouro tem aumentado. Esse interesse institucional elevou o valor total das reservas oficiais de ouro a níveis que chegam a ser medidos em trilhões de euros, ilustrando como o metal ainda está profundamente integrado na estrutura financeira global.
Grande parte do ouro português é mantida em Carregado, uma instalação de alta segurança a poucos quilômetros ao norte de Lisboa, enquanto a outra parte significativa está sob custódia do Banco da Inglaterra, em Londres. Embora possa parecer contraditório que um país guarde parte de sua segurança financeira fora de casa, essa prática responde a uma lógica operacional: Londres continua sendo um centro central para o mercado de ouro, oferecendo infraestrutura para custódia, liquidação e acesso à liquidez, facilitando operações de troca, penhor ou venda.
Essas reservas também atuam como um sinal de credibilidade. Quando investidores e agências de classificação avaliam o risco de um país, eles consideram a saúde de suas contas públicas, seu crescimento, estabilidade política e, paralelamente, a solidez de sua posição externa. Neste contexto, o ouro conta: é um ativo líquido, universalmente aceito e, teoricamente, utilizável como respaldo em emergências.
Portugal tem histórico de momentos de tensão financeira, tendo recorrido ao Fundo Monetário Internacional em diversas ocasiões. Em cenários extremos, como uma dislocação severa do sistema financeiro, o ouro pode atuar como uma ferramenta de estabilização, podendo ser vendido ou utilizado como colateral para obter financiamento. Embora não seja a primeira opção de um banco central, sua mera existência como um “plano B” justifica a manutenção do metal mesmo em um mundo cada vez mais digitalizado.
A acumulação de ouro em Portugal não foi um fenômeno repentino. Sua história inclui o legado do comércio imperial, especialmente com o Brasil, mas a maior parte das reservas se deve a decisões tomadas durante o Estado Novo e no contexto da Segunda Guerra Mundial. Portugal, embora neutro durante o conflito, manteve vínculos comerciais estratégicos e parte dos pagamentos foi realizada em ouro. Historicamente, esses dados mostram reservas do Banco de Portugal em torno de 65 toneladas em 1939, que cresceram para 306 toneladas em 1945, chegando a 866 toneladas em 1974, pouco antes da Revolução dos Cravos.
Entretanto, após o abandono do padrão ouro, muitos bancos centrais reajustaram suas carteiras. Portugal também diminuiu seu volume de ouro, vendendo parte dele sob acordos europeus que visavam evitar distorções no mercado. Enquanto alguns bancos centrais aumentavam suas reservas, Portugal optou por uma estratégia de diversificação, que hoje é vista com um novo enfoque, pois o mundo pós-crise tem valorizado novamente o papel do ouro como ativo-refúgio.
Diante disso, a mensagem permanece clara: em um século dominado por inovações digitais, Portugal ainda acredita que parte de sua segurança financeira pesa, literalmente, toneladas.






