Um estudo recente realizado por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) revelou que alterações epigenéticas nos espermatozoides podem estar ligadas a casos de infertilidade e perdas recorrentes de gravidez. Publicado na revista Biology of Reproduction, a pesquisa foca especificamente nas alterações de metilação que ocorrem nos gâmetas masculinos.
A principal autora do estudo, Joana Marques, destacou que essas alterações podem ter um impacto significativo nas taxas de sucesso das gestações. Embora não existam métodos atualmente validados para corrigir essas anomalias epigenéticas, os dados obtidos oferecem novas perspectivas sobre as possíveis causas de infertilidade. Marques, que já foi pioneira na observação dessas modificações em 2004, afirma que a investigação atual visa compilar as evidências já coletadas sobre o tema.
Com 22 pares de cromossomos autossômicos e um par de cromossomos sexuais, a herança genética se dá pelo alelo do pai e o alelo da mãe, sendo que nos genes imprintados apenas um alelo é expresso e o outro é silenciado. Alterações epigenéticas, influenciadas por fatores como dieta e estresse, podem afetar a expressão desses genes, comprometendo tanto a qualidade dos espermatozoides quanto o desenvolvimento embrionário.
As investigações apontam que um funcionamento correto desses genes é crucial para a saúde da placenta e o desenvolvimento fetal. Assim, erros na metilação podem resultar em síndromes genéticas raras que afetam o crescimento e o desenvolvimento adequado das crianças. O estudo sugere que, no futuro, pode ser possível identificar células com maior risco de apresentar essas alterações, ajudando a evitar recorrências indesejadas em tratamentos de fertilização assistida.
Atualmente, embora seja possível diagnosticar alterações de metilação, a tecnologia ainda não promove análises que não possam comprometer a integridade dos gâmetas. Dessa forma, esforços para minimizar a exposição a fatores ambientais nocivos se tornam essenciais. Em termos de tratamento, não existem ferramentas aprovadas para edição epigenética, mas há pesquisas que visam desenvolver essas alternativas no futuro.
Os investigadores pretendem continuar a avaliar as alterações microscópicas nos espermatozoides e sua relação com as questões epigenéticas para, assim, apoiar a criação de terapias que melhorem as condições de saúde das crianças afetadas. Além de Joana Marques, o estudo conta com a colaboração dos docentes Filipas Carvalho e Alberto Barros da FMUP, além de Mário Sousa do ICBAS.
Origem: Universidade do Porto





