A indústria de memória enfrenta 2026 com um misto de euforia e escassez. A demanda impulsionada pela Inteligência Artificial promete margens históricas; no entanto, o mercado começa a aceitar que a memória para consumidores — PCs, móveis e consoles — já não será a prioridade. Esse cenário se complica com uma ameaça política vinda de Washington: a possibilidade de tarifas de até 100% sobre fabricantes de chips de memória que não relocarem a produção para os Estados Unidos.
A situação atual é descrita por analistas com um termo alarmante: “RAMpocalipse”. Não porque a memória está desaparecendo, mas porque a capacidade de fabricação e preços acessíveis estão se tornando questões de poder financeiro e geopolítica.
Em 2026, o foco da indústria não será apenas em “DRAM”, mas em “HBM” (Memória de Alta Largura de Banda). Essa tecnologia, empilhada em 3D e estreitamente integrada com aceleradores de IA, se tornou um componente estratégico para o treinamento e execução de modelos em grande escala. Sua produção exige uma cadeia industrial especializada e um empacotamento avançado, comprometendo a capacidade disponível.
A indústria está se adaptando a um mercado que prioriza produtos de maior margem voltados para grandes plataformas e hiperescalares. A TrendForce descreve 2026 como um ano “crucial”, no qual os grandes fabricantes estão acelerando a saída de memórias tradicionais focadas no consumidor, priorizando linhas mais lucrativas. Isso pode, segundo a empresa, pressionar os preços por bit a máximos, já que a oferta diminui.
As demandas de contratos a longo prazo para garantir o fornecimento de memória vital para infraestrutura de IA estão se tornando a norma. Estima-se que os centros de dados podem absorver até 70% da produção de chips de memória em 2026, uma vez que as grandes empresas estão dispostas a pagar por essa segurança.
A dinâmica do mercado é ainda mais complicada pela política comercial dos EUA, onde o Secretário de Comércio, Howard Lutnick, insinuou que produtores de memória teriam a opção de pagar tarifas pesadas ou construir fábricas na América. Essa incerteza já está influenciando decisões de investimento e fornecimento.
Embora a indústria esteja anunciando novos investimentos, as melhorias na capacidade não serão imediatas, tornando o cenário ainda mais desafiador. Enquanto movimentos são feitos para aumentar a produção de DRAM e HBM, o calendário da produção de semicondutores está atrasado em relação ao agressivo crescimento da demanda gerada pela IA.
Em última análise, o ajuste de preços e disponibilidade tende a recair sobre o mercado de consumo e pequenas e médias empresas, que não possuem o mesmo poder de compra que os grandes centros de dados. Esses consumidores se deparam com o dilema de pagar mais, esperar ou replanejar seus projetos, enquanto a memória se torna um recurso cada vez mais estratégico no cenário atual.





