A expansão dos centros de dados para Inteligência Artificial (IA) está transformando uma norma consolidada nos Estados Unidos: os arrendamentos de 10 a 15 anos, que sustentaram durante décadas o negócio de colocation e hyperscale. Um relatório da Moody’s Ratings, disseminado pela mídia especializada, revela que os hiperescaleiros estão assinando cada vez mais contratos de aluguel de menor duração, alinhados com o ciclo de vida do hardware. Essa mudança, segundo a agência, gera um aumento do risco econômico que nem sempre é claramente refletido nos balanços financeiros, especialmente em um momento em que os compromissos de capacidade para IA estão em alta.
A lógica industrial por trás dos arrendamentos curtos é clara: alugar reduz o investimento inicial e proporciona maior flexibilidade diante de mudanças tecnológicas. No entanto, a Moody’s alerta que essa flexibilidade pode ser ilusória. Muitas vezes, as reais condições de contratos incluem garantias fora do balanço que funcionam como “paracaídas” para o proprietário do centro de dados, transformando-se, em certos cenários, em custos significativos para o inquilino. Na prática, uma estratégia destinada a evitar despesas de capital pode acabar se assemelhando a dívidas, mas com menos visibilidade para o investidor.
Um ponto crítico identificado pela Moody’s são as Garantias de Valor Residual (RVGs). Simplificando, uma RVG é um compromisso que cobre a diferença de valor de um ativo, como um centro de dados, se ele valer menos do que um valor acordado no momento em que o contrato for cancelado ou não renovado. Esse mecanismo fornece segurança para os empreendedores e seus financiadores ao construir infraestruturas bilionárias com prazos de aluguel mais curtos.
A tensão surge quando a contabilidade não captura toda essa exposição. Nos Estados Unidos, a ativação de certos passivos depende de julgamentos sobre se uma renovação é “razoavelmente segura”. Em centros de dados para IA, onde os ciclos de hardware são acelerados, o inquilino pode argumentar que não é “razoavelmente seguro” renovar, permitindo que extensões de contrato e garantias fiquem fora das obrigações reconhecidas no balanço, apesar da exposição econômica real.
Com compromissos totais que alcançam incríveis 969 bilhões de dólares em arrendamentos futuros, dos quais 662 bilhões ainda não começaram, a Moody’s salienta que o percentual de compromissos fora do balanço equivale a 113% da dívida ajustada mais recente desses grupos. Isso significa que, se uma parcela significativa desses contratos aparecer como obrigações reconhecidas, a imagem de alavancagem e fluxo de caixa pode ser substancialmente alterada.
Enquanto o mercado de centros de dados evolui, investir em ativos especializados para IA exige confiança em contratos e créditos, o que implica riscos de mal-entendidos e reajustes abruptos quando as condições mudam. Para investidores, o desafio é garantir transparência, especialmente quando arrendamentos curtos e garantias aparecem em uma nova dinâmica financeira que pode afetar o futuro do setor.






