Uma equipe de pesquisadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, liderada pelos cientistas Isabel Silveira e José Bessa, revelou novos achados sobre a ataxia espinocerebelosa tipo 37 (SCA37), uma doença neurodegenerativa genética rara. O estudo, publicado na revista Cell Reports, destaca como uma pequena região do DNA, anteriormente considerada sem função, desempenha um papel crucial na regulação do gene DAB1, essencial para o desenvolvimento saudável do cérebro.
Tradicionalmente, apenas cerca de 2% do nosso DNA é conhecido por codificar proteínas, enquanto o restante foi rotulado como “ADN lixo”. No entanto, as descobertas recentes do i3S mostram que essa parte do genoma não codificante é um elemento regulador chamado enhancer, que influencia a ativação do gene DAB1 nas células nervosas. Este gene é fundamental para o posicionamento e formação de conexões corretas entre os neurônios.
Os pesquisadores identificaram uma anomalia na SCA37, onde uma sequência específica de DNA que se repete várias vezes possível leva à superatividade do gene DAB1, resultando em uma produção excessiva dessa proteína nos neurônios. Esta alteração está ligada a sintomas motores característicos da doença, como perda de equilíbrio e coordenação. A equipe utilizou modelos experimentais, incluindo células de pacientes e embriões de peixe-zebra, para observar o impacto desta mutação na comunicação neuronal e no crescimento dos axônios.
Além da superprodução de DAB1, outros genes vitais também mostraram alterações, o que sugere uma interação complexa e em cadeia que pode explicar as semelhanças entre a SCA37 e outras desordens neurológicas, como a Doença de Machado-Joseph. O trabalho ressalta a crescente importância das sequências repetitivas do DNA humano, que, ao contrário do que se acreditava, podem ter funções regulatórias importantes e, quando alteradas, contribuir para o surgimento de doenças.
Essas descobertas podem abrir novas linhas de pesquisa para o entendimento de doenças genéticas ligadas ao aumento de repetições de sequências de DNA e fornecer uma base para o desenvolvimento de terapias mais eficazes. O estudo reforça a necessidade de investigar não apenas os genes, mas também as regiões que controlam sua expressão, oferecendo novas esperanças no tratamento de doenças neurodegenerativas.
Origem: Universidade do Porto






