A indústria de hardware passa por uma reordenação silenciosa, mas profunda: o centro de gravidade não está mais apenas no dispositivo final, mas na infraestrutura que a torna possível. Nesse cenário, a Foxconn Industrial Internet (FII) —a filial continental do grupo Foxconn/Hon Hai— está impulsionando seu crescimento em direção à computação de alto desempenho (HPC), com um foco cada vez mais explícito na nuvem e, principalmente, em servidores de Inteligência Artificial.
Recentemente, a empresa anunciou um plano de investimento de 2 bilhões de yuans (aproximadamente 282,8 milhões de dólares) em sua subsidiária FII Cloud Computing Tianjin, com o objetivo de reforçar a construção da infraestrutura de “computação de IA” e expandir os esforços de pesquisa e desenvolvimento no país. A notícia teve um impacto imediato nas bolsas de valores, com ações subindo 1,9% para 60,96 yuans, após atingir um aumento intradiário de 4,8%. Além do impacto financeiro, essa movimentação revela uma estratégia clara: ampliar seu papel na camada de infraestrutura que apoia o treinamento e a inferência de modelos de IA em grande escala, em vez de se limitar à fabricação de “caixas”.
Os números que acompanham essa mudança são igualmente expressivos. Nos três primeiros trimestres de 2025, a FII reportou receitas de 604 bilhões de yuans, um aumento de 38% em relação ao ano anterior. Durante o mesmo período, o setor de computação em nuvem cresceu substancialmente, com um aumento de mais de 65% no total e de mais de 75% no terceiro trimestre. O lucro líquido também subiu 49%, alcançando 22,5 bilhões de yuans. Durante a conferência sobre os resultados, a companhia expressou otimismo em relação à demanda por racks de servidores de IA no próximo ano, indicando onde pretende capturar valor.
Esse movimento não ocorre isoladamente. O próprio grupo Foxconn tem ressaltado que a demanda por poderio computacional de alto desempenho se converteu em uma tendência estrutural. Nos resultados do segundo trimestre de 2025, destacaram um crescimento anual superior a 60% na venda de servidores de IA, traçando um cenário de aceleração para o terceiro trimestre, com previsão de aumento de mais de 170% nas receitas anuais deste segmento e de três vezes mais envios de racks em comparação ao trimestre anterior. Além disso, a Foxconn estima que as receitas relacionadas a servidores de IA superem 1 trilhão de dólares taiwaneses, evidenciando a magnitude dessa tendência.
O mercado atual não recompensa apenas a fabricação em grande volume, mas sim a integração. No contexto da IA, um “servidor” não é um equipamento isolado, mas parte de sistemas em formato de rack que exigem altíssimos padrões de potência elétrica, refrigeração e densidade. O fabricante que domina a industrialização e a cadeia de suprimentos pode transformar a complexidade em uma barreira de entrada. A FII busca estabelecer-se neste ponto, construindo capacidades para atender provedores de nuvem — grandes empresas que criam centros de dados para IA — em um cenário onde cada geração de hardware aumenta ainda mais as exigências de consumo e dissipação térmica.
Contudo, essa estratégia envolve uma gestão delicada de equilíbrio. O relatório divulgado em dezembro destacou que a FII mantém investimentos em linhas tradicionais; por exemplo, meses antes, anunciou um investimento de 726 milhões de yuans para a construção de um centro de pesquisa e desenvolvimento de componentes de precisão para smartphones de nova geração, com conclusão prevista para o final de 2026. O recado implícito aqui é que a transição não é para desligar os negócios tradicionais, mas para evitar que sejam o único motor de crescimento. A computação “premium” —servidores avançados, infraestrutura em nuvem e sistemas para IA— se revela como o vetor de crescimento mais promissor.
Além disso, um fator geopolítico influencia esse cenário. A expansão da nuvem e da IA está sendo impactada por políticas industriais, tarifas e planos de soberania tecnológica. A Foxconn, como grande ator global, tem destacado que monitora de perto o efeito das tarifas e mudanças no comércio internacional, enquanto expande sua capacidade para produtos de nuvem e rede em diversos mercados. Assim, o desafio para empresas como a FII não é apenas produzir mais, mas produzir onde o cliente necessita, dentro de prazos que atendam os calendários de implantação de centros de dados cada vez mais agressivos.
Nesse contexto, a aposta da FII em fortalecer sua subsidiária em Tianjin parece ser uma preparação para uma década em que a infraestrutura de IA não será um “pico” passageiro, mas um mercado sustentado por investimentos de longo prazo. Contudo, permanece a pergunta sobre se a indústria conseguirá escalar sem fricções, enfrentando desafios como capacidade elétrica, refrigeração, disponibilidade de componentes críticos e uma concorrência cada vez mais ativa. No momento, a FII parece disposta a competir na liga de empresas que não apenas montam hardware, mas também projetam e garantem a continuidade industrial da nova economia da computação.






