A ofensiva política contra a Nvidia em Washington acaba de aumentar. Os senadores Jim Banks, republicano, e Elizabeth Warren, democrata, solicitaram ao secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, que suspenda ou reconsidere as licenças de exportação ativas para chips avançados de Inteligência Artificial e sistemas de servidores da Nvidia destinados à China e a vários países do Sudeste Asiático. O movimento ocorre após o Departamento de Justiça acusar três pessoas ligadas à Super Micro Computer de participarem de um suposto esquema para desviar servidores com tecnologia americana restrita para a China.
Embora a solicitação não represente, por enquanto, uma proibição imediata, ela impõe uma pressão considerável sobre os esforços da Nvidia para reativar seus negócios na China. A situação se torna ainda mais delicada, pois em dezembro de 2025, a Administração americana havia permitido novamente a exportação para a China de certos modelos H200 da Nvidia sob licença. Em 17 de março de 2026, o próprio Jensen Huang, CEO da empresa, afirmou que a companhia já havia recebido permissões e pedidos, levando à reativação da produção desse chip. Agora, essa janela de oportunidade parece estar em risco.
A base dessa nova escalada política reside na acusação formal divulgada pelo Departamento de Justiça em 19 de março. De acordo com os promotores, Yih-Shyan “Wally” Liaw, Ruei-Tsang “Steven” Chang e Ting-Wei “Willy” Sun estariam supostamente envolvidos em um esquema para desviar servidores de alto desempenho integrados com tecnologia avançada de Inteligência Artificial, sujeita a controle de exportações, para a China. Enquanto Chang continua foragido, Liaw e Sun foram detidos.
As acusações indicam que uma empresa intermediária comprou aproximadamente 2,5 bilhões de dólares em servidores da fabricante americana entre 2024 e 2025, com o esquema se tornando cada vez mais agressivo. Apenas entre o final de abril e meados de maio de 2025, pelo menos 510 milhões de dólares em servidores com tecnologia de IA restrita teriam sido enviados para a China, conforme informações do Departamento de Justiça. O suposto desvio teria ocorrido através de Taiwan e do Sudeste Asiático, utilizando documentação falsa e equipamentos para enganar inspeções.
O caso provocou um efeito dominó. Embora a Super Micro não tenha sido acusada como empresa, o escândalo prejudicou sua imagem: um de seus cofundadores deixou o conselho após ser preso, e a companhia alegou ter cooperado com as autoridades e tomado medidas internas. O problema para a Nvidia é outro: apesar de não estar acusada, o caso reabre uma questão incômoda sobre até que ponto um fabricante pode garantir que seus chips não terminam em destinos proibidos.
No pedido enviado por Banks e Warren, não está apenas a solicitação de revisão das licenças, mas também um questionamento direto às declarações públicas de Jensen Huang feitas em 2025, quando a Nvidia buscava autorização para vender chips de IA na China. Segundo informações, os senadores citam duas afirmações do CEO: uma, de que não havia evidências de desvio de chips de IA; outra, de que as empresas e países compradores “se vigiavam muito cuidadosamente” para evitar isso. Os legisladores argumentam que essas afirmações foram contraditas por informações públicas e pedem ao Departamento de Comércio que determine se foram “materialmente falsas ou enganosas” e se influenciaram decisões de concessão de licenças.
A própria nota do Comitê Bancário do Senado vai além e pede uma pausa imediata e uma revisão completa das licenças ativas de exportação de chips avançados da Nvidia e sistemas de servidor destinados à China e a países intermediários como Malásia, Tailândia, Vietnã e Cingapura. Para os senadores, se a empresa não foi capaz de detectar desvio supostamente realizado por clientes não chineses, seria pouco crível que pudesse garantir de forma sólida o controle do uso final em envios diretos para a China.
A Nvidia, por sua vez, defende a prioridade do cumprimento estrito das normas e alega que vender negócios comerciais aprovados e validados pelo governo americano faz parte do interesse industrial do país. A empresa insiste que o problema não reflete uma falta de controle geral, mas sim uma operação ilegal alheia à sua atuação.
A pressão política não se limita à carta dos senadores. No dia 26 de março, o Comitê de Relações Exteriores da Câmara de Representantes aprovou o avanço do chamado Chip Security Act, uma iniciativa bipartidária que exigiria do Departamento de Comércio a implementação de mecanismos de segurança para chips avançados exportados ao exterior, visando dificultar seu desvio para países adversários. O comitê apresenta a proposta como uma resposta direta ao problema do contrabando e às conclusões do comitê seletivo sobre a China em torno do uso de chips restritos no desenvolvimento de IA.
Esse projeto de lei está conectado a outra informação relevante: a Reuters revelou em dezembro de 2025 que a Nvidia estava desenvolvendo uma tecnologia de verificação de localização baseada em telemetria de GPU e tempos de resposta de rede para estimar em que país um chip estava operando. Assim, a ideia de rastrear ou verificar a localização desses aceleradores não é uma fantasia legislativa sem base técnica, embora ainda exista um debate sério sobre seu alcance real, custo e implicações de cibersegurança.
Nem toda a indústria está confortável com esse caminho. A Semiconductor Industry Association, que representa grande parte do setor americano, se opôs ao Chip Security Act em sua forma atual, argumentando que a imposição de novos mecanismos generalizados, não testados a nível de chip, poderia ser inviável em alguns casos, prejudicar a confiança global na tecnologia americana e comprometer a competitividade do país em meio à corrida pela Inteligência Artificial.
O momento político é especialmente delicado, pois a controvérsia surge quando os negócios com a China começavam a se recuperar. A Reuters informou que a Nvidia esperava retomar os envios de H200 para a China já em fevereiro, após a mudança regulatória de dezembro, e Huang confirmou dias depois que a empresa havia reiniciado a produção com a chegada de licenças e pedidos. Esse plano se baseava na ideia de que ainda havia um espaço legal, embora bastante restrito, para determinadas vendas para clientes chineses sob supervisão. A carta bipartidária ameaça restringir ainda mais essa margem.
Além disso, a pressão não vem apenas do Congresso. A Reuters publicou que várias universidades chinesas, incluindo algumas ligadas à pesquisa militar, adquiriram entre 2025 e o início de 2026 sistemas Super Micro com chips Nvidia A100 restritos, apesar dos controles de exportação em vigor. Essa informação reforça o argumento daqueles que afirmam que o sistema atual de licenças, vigilância e cumprimento ainda possui muitas falhas.
O que está em jogo vai além da Nvidia. Os Estados Unidos tentam manter sua vantagem na infraestrutura que sustenta a Inteligência Artificial generativa e os grandes modelos, enquanto a China busca alternativas, rotas de importação e margens regulatórias para não ficar para trás. Nesse embate, cada servidor, cada GPU e cada licença têm um peso muito maior do que parece. Assim, o caso Super Micro pode se tornar mais do que um escândalo corporativo: pode ser o episódio que acelere um endurecimento muito maior do comércio global de chips de IA.






