A disrupção da Inteligência Artificial transforma o financiamento do setor de software
A recente revolução trazida pela Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma mera discussão sobre produtos para se tornar uma questão premente de financiamento no setor de software. Após semanas de penalizações nos mercados financeiros, as empresas começam a sentir os efeitos em suas operações de crédito. A situação se agrava devido a dois fatores principais: a manutenção de taxas de juros elevadas e um exame rigoroso por parte de bancos e investidores de dívida, que agora priorizam a viabilidade real das empresas em vez de meras promessas de crescimento.
O desencadeamento desse cenário é claro: com a automatização e ferramentas generativas tornando certos softwares mais substituíveis, as empresas não enfrentam apenas uma desaceleração no crescimento. O verdadeiro risco é a capacidade de reembolso, que agora está ameaçada. Isso resulta em dificuldades para refinanciar dívidas, que se torna mais onerosa, especialmente devido ao aumento dos spreads e exigências mais rigorosas.
O impacto inicial foi visível nas bolsas de valores. Segundo a Reuters, o índice S&P 500 Software & Services perdeu cerca de 2 trilhões de dólares desde seu pico em outubro, refletindo o crescente ceticismo sobre a sustentabilidade das receitas de software em um mercado onde muitas funções estão sendo abaratas por soluções baseadas em IA.
Em termos de crédito, a situação é igualmente preocupante. O foco está especialmente em empréstimos apalancados, onde a tecnologia, especialmente o software, tem um papel significativo. Neste contexto, a exposição das empresas de tecnologia em empréstimos apalancados nos Estados Unidos chega a aproximadamente 260 bilhões de dólares, em contraste com os 60 bilhões dedicados a títulos de alto rendimento. Essa diferença expõe o setor a riscos maiores, uma vez que uma queda na confiança do mercado pode resultar em condições de financiamento desfavoráveis.
Um alerta da UBS indica que o risco associado à disrupção causada pela IA pode se manifestar ainda mais entre 2026 e 2027, com a possibilidade de calotes aumentando entre 3% e 5%, superando as expectativas dos analistas. O que os investidores agora buscam é a transformação das empresas de software em “negócios em transição”, ao invés de entidades sólidas de receita previsível.
O verdadeiro cerne da questão, no entanto, reside na percepção de “substituibilidade” do software. À medida que a valorização e a capacidade de precificação do software se deterioram, os margens se comprimem. Com margens mais baixas, o custo do capital aumenta, gerando um ciclo vicioso que pode se tornar cada vez mais complicado para as empresas do setor.
Respondendo a essa nova realidade, as instituições financeiras começarão a avaliar não apenas métricas tradicionais, mas também a parte do produto que pode ser automatizada pela IA, refletindo no custo de capital. O impacto transformador da IA sobre o setor de software vai além de mudanças técnicas, coloca em xeque sua própria estrutura de financiamento, levando as empresas a reavaliarem suas estratégias rumo ao futuro.






