A guerra em curso entre Estados Unidos, Israel e Irã tem revelado uma vulnerabilidade inesperada na infraestrutura da internet, área que frequentemente era menos discutida em comparação com debates sobre chips e data centers. O Mar Vermelho e o Estreito de Ormuz emergiram como zonas de alto risco, criando um cenário sem precedentes para a conectividade digital moderna, especialmente afetando o tráfego que liga Europa, Ásia, África e o Golfo.
É importante esclarecer que a situação não deve ser interpretada como um “apagão” completo da internet. O corredor crítico de conectividade entre Europa e Ásia permanece, em sua maior parte, intacto pelo Mar Vermelho, enquanto o Estreito de Ormuz impacta mais diretamente as rotas de conectividade do Golfo. Dados da TeleGeography indicam que, embora o risco do Estreito de Ormuz exista, a maioria dos grandes cabos submarinos passam pelo Mar Vermelho, distante do conflito.
A situação, no entanto, é excepcional. Grandes empresas de navegação, como Maersk e CMA CGM, começaram a desviar suas rotas para longe do Canal de Suez e do Estreito de Ormuz, devido à escalada militar na região. Essa é a primeira vez que ambos os gargalos estão, efetivamente, fechados ao tráfego comercial simultaneamente, alterando a percepção do risco sobre a infraestrutura digital regional.
Além disso, a guerra não é apenas um desafio logístico marítimo. A Amazon Web Services (AWS) confirmou danos em suas instalações em Emirados Árabes Unidos e Bahrein, decorrentes de ataques aéreos com drones, mostrando que a guerra já atingiu a infraestrutura física associada à nuvem.
O Mar Vermelho continua a ser o verdadeiro gargalo crítico, com 17 cabos submarinos essenciais passando por esta região. O impacto de possíveis danos a esses cabos é um risco real, dado que no passado a reparação de cabos danificados nesta área atrasou-se consideravelmente devido a conflitos e restrições administrativas.
Em relação ao Estreito de Ormuz, embora não seja a principal via de tráfego global, ele é vital para a conectividade do Golfo. As empresas da região não dependem exclusivamente dos cabos submarinos, pois também existem rotas terrestres, mas essas não seriam suficientes em caso de um fechamento total das rotas marítimas.
Com a escalada das tensões, a indústria já está em busca de alternativas. Recentemente, a Meta suspendeu parte de seus projetos de infraestrutura de conectividade no Golfo e diversos países da região estão acelerando o desenvolvimento de corredores terrestres para minimizar a dependência das rotas marítimas. A mensagem é clara: assim como a região buscou alternativas para o petróleo ao longo das décadas, agora está construindo um “plano B” para dados.
Em resumo, a infraestrutura digital global, que foi projetada considerando a vulnerabilidade de certos estreitos, agora enfrenta uma crise simultânea em dois pontos críticos. A lição para operadores e governos europeus é clara: segurança e resiliência vão além de proteger os centros de dados; é preciso também diversificar e redesenhar as rotas de conectividade com o resto do mundo, pois a relevância dos pontos frágeis da internet nunca foi tão evidente.





