A expansão da Inteligência Artificial (IA), que recentemente evoluiu do treinamento de grandes modelos de linguagem (LLMs) para a fase de inferência — onde esses modelos são utilizados em produção — está reconfigurando silenciosamente a economia dos data centers. Neste novo cenário, um componente que parecia ofuscado volta a ganhar destaque: a memória.
De acordo com uma análise recente da TrendForce, os grandes provedores de serviços em nuvem (CSPs) estão ampliando seus investimentos não apenas em servidores de IA, mas também em servidores de propósito geral. Essa mudança tem estimulado a demanda por memória, que agora não se limita apenas a HBM3e, LPDDR5X ou RDIMM de alta capacidade, mas também inclui RDIMM em várias densidades para atender a uma gama mais ampla de servidores. O resultado imediato foi um aumento acentuado nos preços contratuais da DRAM “convencional” e um crescimento notável na receita do setor.
A TrendForce estima que a receita total da indústria de DRAM alcançará impressionantes 53,58 bilhões de dólares no quarto trimestre de 2025, representando um crescimento de 29,4% em relação ao trimestre anterior. Essa situação não é um fenômeno isolado, mas reflete um mercado pressionado por uma combinação explosiva: aumento na demanda, oferta restrita e compradores dispostos a pagar mais para garantir o fornecimento.
A narrativa pública da IA geralmente se concentra em GPUs e HBM, mas a operação real dos data centers é mais abrangente. O treinamento de modelos é visível e dispendioso, mas a inferência gera uma demanda massiva, multiplicando instâncias, serviços e produtos empresariais. Essa fase requer uma infraestrutura diversificada, que não se limita a máquinas especializadas.
A TrendForce observa que os CSPs estão expandindo suas operações de data centers com mais servidores de propósito geral, o que está impulsionando uma nova onda de compras de memória. Consequentemente, a DRAM convencional está voltando a competir por wafers, capacidade e planejamento industrial com produtos que anteriormente dominavam as manchetes.
O equilíbrio entre oferta e demanda está se deteriorando, reforçando o poder de precificação dos fabricantes. Nos últimos meses, os preços contratualizados da DRAM convencional subiram entre 45% e 50%, enquanto o preço combinado (DRAM convencional + HBM) aumentou entre 50% e 55%. A TrendForce prevê que, no primeiro trimestre de 2026, a DRAM convencional possa ter um aumento de 90% a 95%, e o combinado de 80% a 85%.
Neste cenário, a segunda metade de 2025 colocou a Samsung de volta na liderança do mercado, com um crescimento significativo em sua receita e aumento em sua participação de mercado. A empresa registrou 19,30 bilhões de dólares em receitas, um aumento de 43% em relação ao trimestre anterior, alcançando uma participação de 36%. Já a SK Hynix e a Micron seguiram em segundo e terceiro lugares, respectivamente, mas enfrentaram desafios em relação à sua participação de mercado.
Enquanto isso, fornecedores taiwaneses estão se beneficiando da demanda em segmentos de nós maduros, aproveitando os espaços deixados pelos gigantes ao migrar para capacidades mais avançadas ou produtos de maior margem. Empresas como Nanya e Winbond reportaram aumento significativo em suas receitas, destacando a resiliência do setor.
Com o aumento dos preços da DRAM convencional, o impacto não se limita aos gráficos financeiros: ele afeta os custos dos servidores, a estratégia de compras e pode provocar um efeito dominó em outros segmentos do mercado, como PCs e eletrônicos de consumo.
Em resumo, a evolução da infraestrutura de IA e a resposta do mercado de memória pode definir o futuro dos data centers, sendo essencial acompanhar a evolução da demanda e a capacidade de resposta da oferta nos próximos meses.






