A escassez prolongada no mercado de memória não é mais considerada um mero “transtorno” cíclico, mas sim um sinal de uma nova fase. A crescente demanda impulsionada pela inteligência artificial (IA) está mudando as dinâmicas comerciais, com consequências significativas para fornecedores e compradores. A capacidade de fabricação agora enfrentam um novo gargalo: a disponibilidade de memória, com alterações nas regras de negociação.
Tradicionalmente, fabricantes de smartphones e computadores pessoais dominavam as negociações, buscando contratos de longo prazo para garantir volume e estabilidade. No entanto, a tendência agora se inverte. Os próprios fabricantes de memória estão ditando novas normas, com contratos que variam entre seis meses e um ano, e com estruturas que permitem a revisão de preços com maior frequência. Essa mudança ocorre em um contexto onde a demanda por memórias de alta performance, como a HBM, está desviando a produção de tipos mais comuns, como DDR e LPDDR, resultando em um abrandamento da oferta de produtos.
A pressão por resultados financeiros em um ambiente de aumento de preços leva os fornecedores a preferirem acordos de curto prazo. Isso significa menos liquidez para ajustes de última hora e uma maior propensão para os compradores acumularem inventário, temendo atrasos nas entregas. Também começaram a surgir contratos “não canceláveis e não retornáveis” (NCNR), nos quais os compradores ficam presos a volumes e condições específicas, limitando sua capacidade de renegociação.
Os impactos dessa nova dinâmica não são meramente teóricos. As mudanças influenciam diretamente os custos, os prazos de entrega e as decisões técnicas. Por exemplo, o salto de preços de um chip DDR5 de 16 Gb, que passaram de 6,84 dólares para 27,20 dólares em poucos meses, representa não apenas a escassez, mas também a necessidade crítica de renovação de infraestrutura. Decisões como a migração de plataformas, planejamento de clusters de TI e investimentos em datacenters estão se tornando mais complexas, com a pressão da IA elevando os custos das memórias tradicionais.
Em suma, a reconfiguração das LTAs (acordos de longo prazo) exige que empresas repensem suas estratégias de compra. Passar de uma abordagem de “compra por preço” para uma de “compra por risco” se torna essencial, com um foco em tempos de aquisição mais estratégicos e alternativas de design. No contexto atual, a escassez não só altera as planilhas de compras, mas também redefine as capacidades operativas e competitivas no setor.





