A explosão dos centros de dados que alimentam a inteligência artificial está começando a colidir com um limite tanto físico quanto político: a eletricidade. Nos Estados Unidos, essa colisão já chegou ao centro do debate público. O ex-presidente Donald Trump afirmou que as grandes empresas de tecnologia devem “pagar sua própria conta” de energia para que os cidadãos comuns não acabem arcando, via tarifas, com os custos da corrida por ampliar a capacidade de IA.
O recado — publicado em sua rede social Truth Social — aponta diretamente para o temor crescente em muitas comunidades: que a chegada de grandes projetos de centros de dados eleve a demanda, force investimentos em redes e geração de energia, e acabe pressionando as contas para cima. Trump afirma que sua administração trabalhará junto às grandes companhias para evitar que “os americanos paguem a conta” da energia consumida pelos data centers, e destacou a Microsoft como o primeiro ator com o qual sua equipe já estaria colaborando para introduzir “mudanças significativas” nesta semana.
Esse impasse não envolve apenas retórica. Em vários mercados elétricos americanos — especialmente onde a capacidade da rede está saturada — instala-se uma sensação desconfortável: a economia digital precisa de megawatts mais rapidamente do que a infraestrutura consegue entregar. Isso se traduz em atrasos na conexão, tensões locais e, cada vez mais, em oposição por parte da população devido ao impacto no consumo de energia e água.
Diante deste cenário, a Microsoft tomou uma iniciativa política ousada, lançando o projeto denominado “Infrastructure de IA em Primeiro Lugar para a Comunidade”. Assinada por Brad Smith, vice-presidente da empresa, a ideia é simples de enunciar, mas difícil de colocar em prática: crescer na área de IA sem causar danos colaterais aos vizinhos.
O plano é estruturado em cinco compromissos que a empresa promete cumprir nas comunidades onde constrói, possui e opera centros de dados. Um dos principais pontos é garantir que o custo da eletricidade para os data centers não seja transferido para os clientes residenciais, afirmando que pedir ao público que subsidie a eletricidade consumida pela IA é “injusto e politicamente irrealista”.
O debate se intensifica ainda mais porque a infraestrutura elétrica não se adapta ao ritmo acelerado do software. A Microsoft reconhece que a implementação de novas linhas e capacidade de transmissão pode levar mais de 7 a 10 anos, enquanto a demanda por IA continua crescendo trimestralmente. Estimativas da Agência Internacional de Energia apontam que a demanda elétrica dos centros de dados nos EUA pode mais que triplicar até 2035, elevando-se de 200 TWh para 640 TWh anuais.
Além disso, a pressão não se limita a alguns poucos projetos. Relatórios recentes do setor indicam que serão feitos investimentos multimilionários em centros de dados em todo o mundo nos próximos anos para sustentar a expansão da IA. Essa pré-contratação reduz o risco de sobrecapacidade, mas também introduz fragilidades, como a concentração em poucos grandes clientes e a dependência de cronogramas de entrega cada vez mais agressivos.
No cenário atual, a futura regulação que exigir mudanças nos custos de operação poderá ter impactos significativos, levando a tarifas específicas para grandes consumidores, acordos diretos com concessionárias, e uma crescente exigência por transparência em termos de consumo de energia e água. Para as grandes empresas do setor, a verdadeira batalha não será apenas “quem paga”, mas como exatamente se determinará quais custos são atribuíveis aos data centers e quem valida essas contas.






