Em Davos, durante uma conversa pública com Larry Fink no contexto do Fórum Econômico Mundial, Satya Nadella, CEO da Microsoft, apresentou uma análise inquietante para o ecossistema de inovação em Inteligência Artificial (IA). Em vez de lançar um novo chip ou anunciar uma colaboração estratégica, Nadella elevou o padrão do que deverá ser considerado valor competitivo na era da IA.
Nos últimos anos, uma parte significativa do mercado tem se apoiado em um modelo simples: envolver APIs de modelos fundamentais, adicionar uma interface atrativa, uma camada de prompts e comercializá-lo como uma “solução”. Este fenômeno prosperou devido ao imenso apelo da novidade, à baixa fricção para adoção e à alta urgência de mercado. No entanto, o recado implícito compartilhado em Davos foi claro: o valor não reside mais em “usar IA”, mas sim em transformá-la em infraestrutura própria, que pode ser gerenciada e amortizada.
Nadella sinalizou uma mudança de foco que afeta a maneira como as empresas devem encarar seus dados, onde a questão não é mais apenas sobre onde os dados residem, mas sim sobre quem controla o desempenho, os custos, a disponibilidade e o aprendizado organizacional dos sistemas de IA. Se uma empresa depende de API externas para suas decisões e automações, está essencialmente “alugando” sua nova camada de inteligência. Isso pode ser viável para experimentação, mas configura-se como frágil quando a IA se torna um processo crítico.
Outro tema debatido em Davos foi a transformação da IA de um software etéreo para uma utilidade física, abordando aspectos como centros de dados, eficiência energética e escalabilidade. Quando o CEO da Microsoft menciona “fábricas de tokens” e associa crescimento à infraestrutura energética, ele destaca um mundo onde vencerão aqueles que controlam custos e operações, além de possuírem a plataforma subjacente.
A expectativa, portanto, é que as startups que simplesmente “revendem” modelos existentes enfrentem um apetite cada vez mais reduzido do mercado. Conceitos como um chatbot sobre documentação ou integrações superficiais estão se transformando em meras características de produtos, com a necessidade de uma proposta de valor que vá além das aparências.
Entretanto, não se trata da morte instantânea das startups que utilizam modelos externos, mas sim da diminuição do espaço para aquelas cujo valor reside apenas em combinações superficiais e sem profundidade. As empresas estão exigindo controle crescente não por uma questão ideológica, mas para garantir eficiência operacional em um mundo onde a evolução constante dos modelos de IA pode rapidamente transformar produtos em capacidades nativas de provedores de nuvem.
As estratégias que prevalecerão na nova era focam em construir ativos únicos, como engenharia de contexto, arquiteturas multimodais e captura de conhecimento tácito. Esse movimento em direção a um entendimento mais robusto da IA marca um ponto de inflexão, onde as soluções precisam ser mais que gimmicks; precisam ser válidas e integradas no funcionamento das operações empresariais.
Assim, ao invés de “matar” as wrappers, Nadella estabeleceu um limite para um modelo preguiçoso que não gera propriedades intelectuais ou vantagens competitivas sustentáveis. A próxima fase da IA promete ser mais industrial, centrando-se na governança, controle de custos e infraestrutura robusta. O desafio que persiste é: se amanhã houver mudanças nos preços ou nas capacidades das APIs de IA, seus produtos permanecerão eficazes ou perderão seu valor essencial? A linha entre construir valor real e apenas depender de terceiros nunca foi tão nítida.





