A queda acentuada dos preços do ouro e da prata no final de janeiro gerou um clima de apreensão nos mercados, revelando uma volatilidade quase sem precedentes, mesmo para um setor que já está habituado a oscilações. Em questão de poucas horas, os dois metais preciosos passaram de picos históricos a um dos dias mais negativos da era moderna, registrando queda de dois dígitos que impactaram futuros, ETFs e o debate global sobre a formação dos preços.
O evento chamou atenção não apenas pela magnitude da queda, mas também pelo fato de que a análise mais comentada nas redes sociais não veio de uma sala de negociação ou de um grande banco, mas de uma conta na X, onde Andy Spinelli batizou o evento de “O Resgate de Janeiro”. Ele descreveu o colapso como uma intervenção coordenada disfarçada de acidente, supostamente destinada a aliviar a pressão sobre grandes posições curtas. Segundo Spinelli, uma sequência de decisões técnicas, como suspensões, aumento de margens e liquidações forçadas, teria causado uma transferência de riqueza de operadores alavancados para instituições com mais recursos financeiros.
A sessão crítica ocorreu no dia 30 de janeiro de 2026, quando o mercado experimentou uma reversão acentuada após um aumento explosivo dos preços. De acordo com a Reuters, o ouro chegou a cair cerca de 9,5% em tempo real, enquanto os futuros norte-americanos apresentaram quedas ainda maiores; a prata despencou cerca de 27,7%, caminhando para registrar um dos piores dias da sua história.
Um dos pontos centrais do debate foi o aumento dos margens de garantia nos contratos futuros de metais preciosos. O CME Group anunciou um aviso que elevou os requisitos de margem em metais preciosos, com um incremento dos requisitos para perfis de risco elevado em prata, que passou de 11% para 15%, com alteração prevista para entrar em vigor em 2 de fevereiro.
A questão é crucial, pois quando um mercado opera com um alto nível de alavancagem, um aumento nas margens age como um alerta: quem não consegue aportar garantias adicionais é forçado a reduzir ou fechar posições. Em um ambiente já tenso, isso pode resultar em vendas automáticas em cascata. Para os defensores da teoria do “resgate”, não é a existência de margens que preocupa, mas sim o momento e a forma como essas mudanças são aplicadas, especialmente em um cenário de mercado extremo e com um final de semana se aproximando, que pode deixar muitos operadores sem capacidade de ação ou financiamento.
A situação se propaga rapidamente para fora dos Estados Unidos. Na Índia, a Multi Commodity Exchange (MCX) abriu uma sessão especial no dia 1 de fevereiro em razão da apresentação do orçamento, levando à cobertura da mídia local sobre um ambiente tenso, repleto de ajustes de margens e elevada volatilidade em metais. Além disso, a Bolsa de Valores de Bombaim (BSE) adotou medidas de emergência para limitar a volatilidade em ETFs ligados ao ouro e à prata.
Essas dinâmicas — aumento de margens, limitações e um mercado emocionalmente perturbado — propõem dois narrativas conflitantes: a institucional, que considera a correção inevitável após a alta anterior, e a alternativa, que sugere uma pressão do sistema para forçar liquidações.
O texto viral de Spinelli encadeia conceitos impactantes, desde a argumentação de que o rally anterior estava “asfixiando” grandes investidores com posições curtas, até a implicação de que as alterações nos margens e as suspensões de negociação teriam ocorrido em um momento “conveniente”. No entanto, mesmo que algumas de suas mecânicas estejam corretas, a acusação de uma coordenação deliberada precisa de evidências concretas.
As explicações recorrentes nos veículos de comunicação financeiros tendem a atribuir o colapso a fatores mais convencionais, como realizações de lucros, reforço do dólar e uma mudança abrupta nas expectativas macroeconômicas. Em particular, a Reuters apontou que o choque poderia estar vinculado a um giro político-econômico nos Estados Unidos após um anúncio relacionado à presidência da Reserva Federal.
Esse episódio relevante destaca realidades incômodas do mercado moderno: os preços podem ser mais influenciados pela mecânica do mercado do que pelos fundamentos, a regulação técnica tem um impacto significativo na redistribuição de riscos e a confusão do público entre metais preciosos e seus correspondentes físicos pode acentuar a volatilidade.
Para os investidores de varejo, a lição é clara: os metais preciosos não servem apenas como um “porto seguro”. Eles operam dentro de um ecossistema de futuros, alavancagem e regras que podem mudar repentinamente. Para o sistema financeiro, fica a dúvida: até que ponto os metais preciosos são um termômetro de confiança e em que medida esse termômetro pode ser ajustado pela estrutura do mercado?






