Nos últimos anos, a escolha de uma tecnologia tornou-se uma decisão que envolve engenharia, custos, riscos, habilidades da equipe e necessidades reais. No entanto, em parte do setor de software, o Kubernetes passou de uma simples ferramenta para um símbolo de status. Nas entrevistas técnicas, propostas comerciais e até mesmo em conversas informais, a pergunta “Vocês usam Kubernetes?” tornou-se quase obrigatória. Frequentemente, essa resposta é interpretada como um indicativo de maturidade ou obsolescência.
Essa crítica ressurgiu nas comunidades técnicas após uma reflexão publicada no LinkedIn por um profissional da área de nuvem. Sua tese é provocativa e reconhecível para quem já trabalhou com infraestruturas modernas: o Kubernetes é excepcional quando resolve o problema certo; caso contrário, pode se transformar em um imposto de complexidade desnecessário.
### Da engenharia ao “culto do cargo”: imitar sem entender os custos
O texto menciona uma ideia clássica do mundo tecnológico: o “culto do cargo”, uma metáfora sobre a cópia de rituais externos na esperança de obter os mesmos resultados. No contexto da nuvem, isso significa observar que empresas hiperescaláveis utilizam Kubernetes e assumir que replicar essa arquitetura garantirá confiabilidade, velocidade ou sucesso. Na prática, muitas organizações descobrem que o Kubernetes não apenas “orquestra contêineres” — ele introduz um ecossistema operacional completo. Isso inclui controladores de ingress, gerenciamento de certificados, DNS automatizado, políticas de rede, entre outros.
O autor ironiza ao afirmar que a indústria confundiu “escalabilidade” com “credibilidade”, como se todas as empresas estivessem à beira de um problema envolvendo milhões de usuários. A maioria das empresas busca, na verdade, uma implantação rápida, sem falhas humanas e com alta disponibilidade, sem ter que dedicar uma grande parte de sua equipe para a plataforma.
### O retorno do sysadmin: fundamentos antes da liturgia
Outra parte da mensagem critica a desvalorização do papel do administrador de sistemas, que compreende processos, memória, rede e diagnóstico, em favor de funções modernas repletas de siglas e ferramentas. A crítica não é contra a nuvem ou o DevOps, mas sim à adoção de camadas de complexidade que não agregam valor real. Quando algo falha às três da manhã, o que salva o sistema não é um slogan, mas o domínio dos fundamentos e a capacidade de depurar.
### O caso prático: reduzindo implantações de horas para minutos sem Kubernetes
O autor compartilha como sua equipe conseguiu reduzir implantações manuais de 2,5 horas para poucos minutos, usando uma estratégia comum na AWS: ECS com Fargate, sem recorrer ao Kubernetes. A receita é simples, mas eficaz:
– Construir e publicar a imagem do contêiner.
– Implantar ou atualizar o serviço.
– Configurar balanceador, certificados e DNS de forma programática.
– Deixar que a plataforma gerencie o rollout e as verificações de saúde.
O ponto não é vender Fargate como uma solução universal, mas mostrar que, para determinados tamanhos de equipe e cargas de trabalho, o sucesso reside em reduzir a superfície operacional, não em ampliá-la.
### Quando faz sentido usar Kubernetes e quando não
Apesar de seu tom crítico, o autor não é anti-Kubernetes. Ele sugere que o uso do Kubernetes faz sentido quando:
– Há dezenas ou centenas de serviços com necessidades complexas.
– Existe uma equipe dedicada à plataforma.
– A portabilidade é um requisito.
– Há necessidade de padrões avançados.
Alternativas como ECS/Fargate podem ser mais adequadas quando:
– O número de serviços é moderado.
– A equipe é pequena ou deseja focar no produto.
– A velocidade de entrega é priorizada em relação a um controle minucioso.
– Quer-se minimizar a manutenção da camada de orquestração.
### A armadilha do “padrão da indústria”
Embora o Kubernetes tenha se tornado um padrão, isso não significa que seja uma obrigação. Essa confusão acarreta custos: arquiteturas superdimensionadas, equipes exaustas e orçamentos que poderiam ser melhor alocados. O debate sobre a adoção de Kubernetes e suas implicações ainda está longe de terminar, mas questionar o valor de adotar certas tecnologias apenas por pressão do mercado pode ser a decisão mais rentável em um momento em que a eficiência é fundamental.






