A corrida europeia para atrair centros de dados de hiperescala está se definindo por fatores que vão muito além do preço da eletricidade. A disponibilidade de terrenos, o acesso efetivo à potência de rede e a velocidade de entrega se tornaram os três principais gargalos que separam os anúncios dos projetos que realmente entram em produção. Nesse contexto, a aliança entre a Iberdrola e a Echelon Data Centres — apresentada pela própria Echelon como um novo modelo para o desenvolvimento “hiperscale” — busca precisamente enfrentar esses três desafios de forma coordenada.
A estratégia adotada não é um acordo comercial convencional. Ambas as empresas formaram uma joint venture, a Echelon Iberdrola Digital Infra, com uma estrutura de participação onde a Echelon detém 80% e a Iberdrola 20%, por meio de sua filial de infraestrutura digital CPD4Green. O objetivo declarado é construir e operar centros de dados em grande escala na Espanha, com um enfoque que, desde o início, combina o desenvolvimento do local e a conexão elétrica com a implementação do campus e sua operação posterior.
O modelo visa resolver “as três maiores restrições” do setor — disponibilidade de terrenos, acesso à potência de rede e velocidade de entrega — e se apresenta como um padrão para infraestrutura sustentável e escalável. A realidade é que, atualmente, a construção de um centro de dados não é bloqueada apenas por licenças urbanísticas ou CAPEX, mas também por capacidade elétrica e prazos de conexão.
Na prática, a aliança entre uma empresa de energia e um desenvolvedor especializado reduz o risco do ponto mais incerto: garantir terrenos com uma conexão viável e energia garantida 24/7. A Iberdrola traz para a mesa terrenos estrategicamente localizados e o compromisso de fornecer eletricidade limpa. A Echelon, por sua vez, é responsável pela parte mais intensiva da execução, que abrange permissões, design, comercialização e operação diária.
Este compartilhamento de responsabilidades está alinhado com a tendência do mercado: os hiperescalares exigem capacidade rápida, mas também rastreabilidade sobre a energia, cronogramas e resiliência. Isso obriga uma “industrialização” do processo de implantação, evitando que a infraestrutura crítica dependa de integrações tardias.
O primeiro projeto anunciado sob esta plataforma é Madrid Sur, um complexo de 160 mil m² com uma capacidade prevista de 144 MW de processamento e uma conexão elétrica assegurada de 230 MW. O calendário prevê que o projeto entre em operação antes de 2030, e sua demanda anual estimada gira em torno de 1 TWh (1.000 GWh). Parte do fornecimento de energia será atendida por uma planta solar fotovoltaica no próprio local, complementada com energia renovável adicional da Iberdrola.
Este cenário marca um ponto crucial para entender por que o mercado está se direcionando para alianças dessa natureza: o gargalo não está apenas no edifício (que pode ser executado com metodologia industrial), mas também na capacidade da rede e sua disponibilidade temporária.
A Iberdrola apresentou essa joint venture como a maior aliança estratégica na Europa entre uma fornecedora de energia e um desenvolvedor de centros de dados. O investimento previsto ultrapassa 2 bilhões de euros, com foco na criação de uma rede de campus em grande escala na Espanha. Ao mesmo tempo, há indícios de que o plano pode ser ampliado com projetos adicionais, à medida que conexões e locais sejam consolidados.
O recado é claro: a Espanha quer competir não apenas pelo custo energético, mas também pela capacidade de entrega. Para um hiperescala, a promessa de “terreno + rede + energia + operação” em um único pacote reduz atritos, facilita o planejamento e simplifica o caminho desde a escolha do local até o go live.





