DeepSeek, o laboratório chinês de Inteligência Artificial que está revolucionando a indústria com modelos de baixo custo, quebrou uma das rotinas mais consolidadas do setor: não concedeu à Nvidia nem à AMD acesso prévio ao seu próximo modelo insignia, V4, para otimização de desempenho. Segundo fontes citadas pela Reuters, ao invés de compartilhar versões preliminares com os grandes fabricantes americanos — prática comum antes de lançamentos significativos —, a DeepSeek teria dado uma vantagem de várias semanas a fornecedores locais, incluindo a Huawei, para ajustar software e desempenho em seus processadores.
Esse movimento acontece em um contexto de escalada nas tensões em torno da cadeia de suprimentos de chips e dos controles de exportação. Mais do que um gesto simbólico, a mensagem é clara: na nova era da IA, quem otimiza primeiro, recebe primeiro. E em um mercado onde o desempenho real depende tanto do silício quanto de Kernels, compiladores, bibliotecas e drivers, o “tempo de vantagem” se transforma em uma vantagem competitiva.
O acesso inicial à nova tecnologia geralmente permite que os desenvolvedores trabalhem em sinergia com os fabricantes de chips, polindo compatibilidades e melhorando o desempenho do hardware utilizado. A Reuters destaca que a DeepSeek já havia colaborado anteriormente com a Nvidia, o que destaca a mudança de postura em relação a este novo lançamento.
Com essa decisão, a Huawei e outros atores locais podem configurar seu stack —drivers, runtimes, integração e ajuste— para que o V4 opere de forma otimizada em seu silício. Em um cenário em que a China busca minimizar sua dependência de tecnologia americana, esse tempo extra é uma peça-chave: se os modelos são cada vez mais treinados e servidos dentro das fronteiras tecnológicas chinesas, o controle sobre a plataforma como um todo (chips + software + operação) se torna estratégico.
Embora não haja uma declaração oficial por parte da DeepSeek ou da Huawei, o setor vê essa decisão como uma estratégia que visa manter em desvantagem o hardware e os modelos americanos no mercado chinês. O impacto sobre a Nvidia e a AMD é considerado limitado no curto prazo, mas insere-se em uma estratégia mais ampla de autonomia tecnológica.
No entanto, as implicações vão além do campo técnico. A notícia vem em meio a um clima explosivo de controles de exportação e suspeitas sobre o uso do chip Blackwell, o mais avançado da Nvidia, em um novo modelo da DeepSeek, mesmo com as restrições que bloqueiam o envio desse chip para a China.
À medida que a competição se intensifica, a otimização de modelos para inferência se torna crucial. A batalha atual ultrapassa o treinamento de modelos gigantes, com especial atenção à execução eficiente e escalável dos mesmos no mercado. Embora os EUA tenham reativado a venda de chips voltados para inferência à China, a otimização dos modelos locais pode reduzir a dependência de hardware importado.
DeepSeek está emergindo como um símbolo de uma nova onda de modelos chineses que ganham tração em comunidades open source, tendo seus modelos baixados mais de 75 milhões de vezes na plataforma Hugging Face desde janeiro de 2025. Com esse alto nível de adoção, as decisões técnicas do laboratório ganham uma relevância geopolítica, refletindo um debate sobre o efeito das restrições de chips na competitividade americana.
O caso DeepSeek-V4 sugere uma ruptura na normalidade do ecossistema de IA, onde o acesso antecipado e a otimização de software se tornam ferramentas de política industrial. O laboratório chinês reafirma que o desempenho não é apenas uma questão de GPUs, mas também de tempo, prioridade de acesso e colaborações no emergente cenário da Inteligência Artificial.






