A Apple inicia 2026 com uma mensagem ambígua para o mercado: de um lado, demonstra sua capacidade de gerar caixa em larga escala; por outro, suas ações já refletem boa parte dessa força. No fechamento da sessão de 15 de janeiro de 2026, os títulos da companhia estavam cotados em aproximadamente 259,96 dólares.
A questão – ou oportunidade, dependendo da perspectiva – é que a expectativa agora está elevada. Em um ambiente onde a tecnologia voltou a conquistar múltiplos elevados, impulsionada pelo “efeito IA”, a Apple enfrenta um desafio crítico: precisa provar que seu crescimento pode ser sustentável sem depender exclusivamente do ciclo do iPhone.
Os resultados do último exercício fiscal sustentam a narrativa positiva em torno da marca. Em seu quarto trimestre fiscal de 2025, que se encerrou em 28 de setembro de 2025, a Apple reportou vendas líquidas de 102,5 bilhões de dólares e um lucro líquido de 23,97 bilhões, com um lucro por ação (LPA) diluído de 1,85 dólares. No total do exercício, a empresa alcançou vendas líquidas de 416 bilhões de dólares e um lucro líquido de 93,74 bilhões, resultando em um LPA diluído anual de 7,46 dólares.
Esses números explicam por que a Apple mantém seu status de “blue chip” tecnológica. A companhia continua a operar em uma escala que poucas conseguem igualar, o que lhe permite lidar com impactos diversos (como demanda, variações cambiais e regulamentações) de maneira mais eficaz que muitas concorrentes.
Com o preço atual em torno de 259,96 dólares e um LPA diluído de 7,46 dólares, o mercado está avaliando a empresa com um múltiplo aproximado de 34,8 vezes esse lucro anual. As métricas de mercado também apontam um preço sobre lucro (P/E) próximo de 30, segundo fontes de dados. Em resumo, a percepção é clara: a Apple não está barata. Com essa valorização, o mercado espera que a companhia mantenha seu crescimento, margens e narrativa, e que o faça com cautela.
Nesse contexto, tudo o que fortalece o negócio recorrente e a fidelização ao ecossistema da Apple passa a ter maior importância. Nesse sentido, o anúncio do Apple Creator Studio, uma assinatura que reúne aplicativos criativos avançados com funcionalidades “inteligentes” e conteúdos exclusivos, se destaca. A Apple está posicionando o serviço por 12,99 euros por mês ou 129 euros por ano, com um mês de teste gratuito e um plano educativo a 2,99 euros por mês ou 29 euros por ano. A disponibilização está prevista para 28 de janeiro.
Mais do que o produto em si, essa iniciativa é relevante porque reforça a ideia de geração de receitas recorrentes, compete pela parte do “wallet share” do criador (seja vídeo, música ou imagem) e incentiva que usuários profissionais permaneçam no ecossistema Apple.
Entretanto, o grande risco estratégico para 2026 reside nas expectativas em torno da inteligência artificial. O mercado tecnológico está em um constante estado de comparação: assistentes virtuais, modelos de produtividade e fluxos de trabalho automatizados. A Apple não compete apenas com fabricantes de hardware, mas também com plataformas que são atualizadas quase semanalmente. Nesse cenário, a empresa precisa garantir que sua proposta de valor em IA seja vista como útil, segura e diferenciadora – e não como um acessório tardio.
Esse tipo de percepção é crucial, pois com uma valorização elevada, qualquer indício de defasagem tecnológica tende a ser amplificado. Caso o mercado interprete que a Apple está ficando para trás, as consequências poderão refletir-se não apenas no lucro, mas também no múltiplo.
Os investidores devem ficar atentos a cinco aspectos nos próximos meses, à medida que a pressão sobre a avaliação aumenta: a qualidade do crescimento (não apenas o quanto, mas de onde provém), a elasticidade da demanda (sinais de fadiga do consumidor), a monetização recorrente (efeito de novas assinaturas como o Creator Studio), margens e eficiência operacional, e, por fim, a narrativa de produto, essencial para que o usuário enxergue valor adicional, especialmente em períodos de prolongamento do ciclo de renovação.
Com tudo isso em vista, a discusão sobre a atual valorização da ação da Apple e a resposta da companhia às expectativas do mercado seguirá em pauta ao longo de 2026.






