Nos últimos anos, diversas empresas da América Latina têm optado por uma abordagem de “prudência” em suas operações, caracterizada pela venda de filiais, redução de dívidas e concentração em mercados considerados “seguros”. Um exemplo notável é a Telefónica, que está acelerando sua saída da unidade Hispam, enquanto a Iberdrola finaliza operações significativas no México, incluindo a venda de 13 usinas por 6,2 bilhões de dólares.
Entretanto, essa análise financeira não abrange totalmente as mudanças que ocorrem no setor tecnológico. O que está em jogo não é apenas a propriedade acionária, mas também a infraestrutura física e digital que sustenta uma economia moderna. Em um contexto de inteligência artificial, centros de dados e cadeias de suprimento tensionadas, abrir mão dessas infraestruturas é, na prática, abrir mão de poder.
Uma nova visão, que ganha espaço entre analistas geopolíticos e de infraestrutura, sugere que o que o Ocidente chama de “desinvestimento” é, na verdade, a criação de um vazio de poder. Esses vazios, nos domínios da logística, energia, dados e financiamento, raramente permanecem inexplorados por muito tempo.
### Hardware: a logística como sistema ciberfísico
A logística evoluiu para um sistema ciberfísico, onde a modernidade dos portos carrega consigo uma série de inovações como sensores e automação. O megapuerto de Chancay, no Peru, exemplifica essa nova conectividade transpacífica, prometendo encurtar rotas e consolidar um corredor comercial com a Ásia. O Canal do Panamá, por sua vez, mostra como a compra e controle de terminais se transforma em um assunto de intensa concorrência política e econômica.
### A Bateria: onde o litio se torna crucial
A transição energética e o crescimento da inteligência artificial estão interligados por uma necessidade voraz de materiais, especialmente cobre e litio. O “Triângulo do Litio” (Chile, Argentina e Bolívia) se torna um palco de investimentos chineses, que se manifestam por meio de diversas participações e acordos de fornecimento.
### O sistema nervoso: rede elétrica e de dados
Na economia digital, a interdependência entre a rede elétrica e a rede de dados se torna inegável. A crescente presença chinesa em serviços públicos e redes na América Latina é notável, com aquisições em países como Chile e Peru, onde a modernização das redes se traduz em ativos estratégicos.
### Software: o sistema financeiro por trás das infraestruturas
O último aspecto a considerar é o software, que abrange não apenas aplicativos, mas também todo o sistema financeiro que sustenta a infraestrutura. O protagonismo de negociar swaps com a China em momentos de crise financeira na Argentina é um exemplo das implicações que tais vínculos têm para a soberania econômica de um país.
### Conclusão
A pergunta que se coloca é se essa nova configuração é “ruim” ou “inevitável”. Para muitos países latino-americanos, os investimentos chineses têm sido uma oportunidade para suprir lacunas de infraestrutura. No entanto, o que realmente está em jogo é a natureza daquilo que está sendo vendido, como e por quem se está sendo financiado, o que pode eventualmente implicar uma limitação da soberania nacional.
Observações para o futuro incluem a importância de mapear dependências, garantir normas e auditorias adequadas, e a necessidade de evitar a venda do “centro de controle” das infraestruturas críticas. Em um mundo cada vez mais interconectado, a capacidade de um país de preservar sua autonomia e influência será determinante para seu sucesso econômico e tecnológico.






