O mercado de chips de Inteligência Artificial está em transformação, e uma das principais mudanças é a crescente importância da capacidade de financiar a infraestrutura necessária para treinar e operar modelos em grande escala. Neste contexto, a AMD tomou uma decisão inesperada para um fabricante de semicondutores: garantir um empréstimo de 300 milhões de dólares para a startup de nuvem Crusoe, com o objetivo de acelerar a aquisição e o lançamento de aceleradores de IA da AMD em um novo centro de dados.
A operação, revelada pelo The Information e confirmada pela Reuters, é estruturada pelo Goldman Sachs e utiliza os próprios chips e equipamentos como colateral. O diferencial do acordo é a garantia oferecida pela AMD: caso a Crusoe não consiga atrair demanda suficiente para alugar essa capacidade a seus clientes, a AMD compromete-se a arrendar de volta esses chips, reduzindo o risco para a instituição financeira e possibilitando condições de financiamento mais favoráveis para a startup.
O mecanismo de respaldo se destaca, pois, ao invés de apenas vender hardware, a AMD se insere na equação financeira. Se os negócios não evoluírem conforme o esperado, a companhia aceita alugar a capacidade ou o hardware para evitar a ociosidade, uma estratégia frequentemente associada ao “seguro de demanda”.
Detalhes divulgados indicam que esse respaldo permitiu estabelecer o empréstimo com uma taxa de juros de 6%, um patamar significativo para uma empresa que depende de investimentos constantes em infraestrutura de centros de dados. Na prática, o acordo transforma o hardware em um ativo financeiro, servindo tanto como produto quanto como garantia para o empréstimo.
O lançamento desses aceleradores está ligado a um novo centro de dados em Ohio, desenvolvido pela empresa canadense 5C e apoiado pela Brookfield. A Crusoe se posiciona como um operador com foco em energia, buscando expandir a infraestrutura de IA com ênfase em escalabilidade e energia. Antes deste movimento, a startup já havia anunciado uma linha de crédito de 750 milhões de dólares com a Brookfield e uma rodada de investimento Série E de 1,375 bilhões de dólares, destacando-se como um projeto de alto orçamento.
O modelo financeiro adotado pela AMD para este acordo remete a uma estratégia similar observada na NVIDIA, que no passado comprometeu-se a comprar capacidade não utilizada de outras companhias para reduzir o risco do operador de nuvem especializado em GPU. Tanto na AMD quanto na Crusoe, a lógica é clara: mitigar riscos para acelerar o lançamento de novas capacidades no mercado.
Entretanto, esses acordos geram debate no setor. Alguns investidores e analistas já estão observando o ascendente fenômeno dos “acordos circulares”, onde o fluxo econômico se interliga de forma que o chip financia o empréstimo, que por sua vez compra o chip. Esse tipo de operação pode acelerar a construção da infraestrutura necessária em momentos de alta demanda, mas também transfere parte do risco operacional dos operadores para os fornecedores de hardware.
Para a AMD, a motivação é clara: ganhar participação em um mercado dominado pela NVIDIA e cuja expansão na nuvem pode multiplicar a disponibilidade para desenvolvedores e melhorar o ecossistema. No entanto, assumir tais compromissos pode se tornar oneroso em um cenário de resfriamento do mercado.
No aspecto prático, esse movimento poderá resultar em mais oferta de GPUs AMD na nuvem, garantindo novas opções para empresas e desenvolvedores. Isso não só ampliará a competição no setor de “nuvem de IA”, mas também poderá pressionar os preços para baixo, beneficiando os usuários finais. Em suma, a guerra do silício está evoluindo para um confronto pela capacidade instalada; quem conseguir colocar mais racks em operação rapidamente, e mantê-los em uso, sairá na frente.






