A cada ciclo tecnológico surgem previsões recorrentes sobre a queda de grandes padrões, e, no universo da criatividade digital, esse padrão é representado pela Adobe. Contudo, entre 2024 e 2026, a conversa se tornou mais severa: o Canva capturou o mercado da criação rápida, enquanto o Figma domina o design colaborativo. Para os investidores, a questão não é se essas plataformas são boas — elas são. O verdadeiro desafio é se o avanço delas está comprometendo os fundamentos econômicos da Adobe, que incluem retenção de clientes, poder de precificação e capacidade de expansão por cliente.
A análise financeira atual não deve ser vista de forma binária, com as categorias “Adobe ganha” e “Adobe perde”. Em vez disso, devemos considerar a continuidade da Adobe com base em sua resistência — mais comportamental do que tecnológica — à erosão trazida pela concorrência. Há riscos, sem dúvida, mas a mudança pode ser mais lenta e geracional do que o barulho sugere.
Um dos pontos fundamentais que não aparece no balanço da Adobe é o custo de mudança cognitivo. A empresa não retém clientes apenas pela questão do preço, mas pelo tempo investido. Nos setores criativos, o recurso escasso é a produtividade — a capacidade de entregar projetos no prazo, iterar rapidamente e manter a consistência em equipe. A verdadeira dificuldade em mudar de plataforma envolve aspectos como memória muscular, pipelines interiorizados, bibliotecas acumuladas e a interoperabilidade entre aplicações do ecossistema. Portanto, mudar de ferramenta não se resume a instalar um novo software; envolve uma queda temporária no desempenho, o que pode ter um custo significativo para os profissionais e para as empresas.
O segundo pilar da dominância da Adobe no mercado é o fato de que, em muitos contextos, a plataforma se tornou o padrão cultural e operacional. Agências, produtoras e equipes de marketing moldaram seus processos em torno do Creative Cloud, gerando um efeito de rede significativo. A contratação de profissionais que dominam a Adobe é incentivada, a colaboração entre equipes exige compatibilidade de arquivos, e tanto fornecedores quanto clientes esperam entregas dentro desse “idioma”.
A concorrência, no entanto, está atacando onde mais dói: a porta de entrada. Canva e Figma não precisam conquistar os clientes da Adobe para causar impacto; basta que cativem novos usuários. O Canva reduz a fricção com suas templates e resultados rápidos, enquanto o Figma transformou o design em uma experiência colaborativa em tempo real. Se novos criativos passarem de 5 a 10 anos fora do ecossistema da Adobe, o “lock-in” cognitivo deixa de existir, o que pode afetar negativamente o valor projetado da empresa no longo prazo.
Apesar dos desafios, a Adobe ainda possui algumas palancas defensivas que podem ajudar a sustentar sua posição no mercado. A base instalada, por exemplo, oferece uma baixa elasticidade de preço, permitindo à empresa explorar renovação de contratos e expansão por assento. A suíte de produtos da Adobe a torna competitiva em diversas etapas do fluxo de trabalho criativo, enquanto a incorporação de inteligência artificial pode acelerar processos e manter a percepção de valor sem exigir mudanças significativas por parte dos usuários.
O Adobe Express também se destaca como uma iniciativa defensiva, atuando como uma ferramenta de aquisição e reconversão. Se conseguir atrair novos usuários e integrá-los ao ecossistema da Adobe, isso pode acalmar os receios sobre o valor futuro da empresa.
Por fim, a vigilância atenta a métricas como retenção no segmento profissional, tração do Express, conversão de usuários e pressão sobre preços será crucial. A conclusão é clara: a Adobe pode continuar a prosperar, mas deve estar atenta às mudanças no mercado. Sua durabilidade está em jogo, mas a janela de oportunidade para adaptar-se a nova realidade do setor criativo é vasta e pode determinar o futuro da empresa.





