Nos últimos dias, o ecossistema de telecomunicações na Espanha foi surpreendido por um movimento incomum: uma comunicação da CNMC (Comissão Nacional de Mercados e Concorrência) destinada a todas as empresas inscritas em seu Registro de Operadores, ordenando o bloqueio de seis domínios relacionados a transmissões ilegais de futebol. O que causa estranheza não é apenas o alcance da medida — que impacta tanto grandes redes nacionais quanto pequenas operadoras locais — mas também o contexto: já se passaram mais de dez anos desde os eventos associados, e, segundo diversas fontes do setor, muitos desses sites já estão fora do ar ou não estão registrados.
A CNMC, que atua como reguladora dos mercados e supervisora do setor de comunicações eletrônicas, não se pronuncia sobre o motivo do bloqueio na comunicação divulgada. Na prática, foi enviada uma ordem de “cumprimento estrito” de um ofício da Audência Provincial de A Coruña, recomendando que as operadoras entrem em contato com o tribunal em caso de dúvida operacional.
A lista de domínios a serem bloqueados inclui nomes como teledeporteonlinetv.org, kasimirotv.net e lasaladeportiva.es, todos associados a transmissões ilícitas de partidas de LaLiga e da Copa do Rei durante as temporadas de 2015/16 e 2016/17. Casos judicialmente reconhecidos indicam que a empresa envolvida havia gerado 1,7 milhões de euros entre julho e dezembro de 2016, um dado que ilustra a dimensão econômica do caso, mesmo que o bloqueio chegue atrasado.
Um ponto que levanta questões é o fato de que a CNMC se dirige a “todas” as operadoras de telecomunicações. No país, aquelas que exploram redes públicas ou prestam serviços de comunicações ao público devem notificar previamente sua inscrição no registro, criando uma base de dados que pode ser usada para instruções de alcance geral. O que torna a situação inusitada é que a obrigação não foi limitada a operadoras acima de um certo limite, como costuma ocorrer em outras ordens de bloqueio, o que pode sobrecarregar operadoras menores e com recursos limitados.
Embora o ofício mencione o “bloqueio do acesso” a partir do território espanhol, na realidade técnica existem várias maneiras de cumprir essa ordem. Já existem precedentes de bloqueios coordenados relacionados à propriedade intelectual em que se utilizam mensagens padronizadas e redirecionamentos para páginas de informações oficiais. Cada método tem impactos distintos e pode não ser igualmente viável para todas as operadoras.
A eficácia real da ordem é motivo de controvérsia. Com muitos dos domínios já inativos, o bloqueio pode acabar se tornando um ato meramente formal, levantando questões operativas para as empresas, especialmente quando a ordem é direcionada a todo o registro, ampliando o escopo além do normal. O setor se questiona se a CNMC está sendo utilizada como um canal para distribuir ordens, dado que é a única entidade capaz de alcançar todas as operadoras registradas de maneira rastreável.
Controvérsias em torno desse assunto continuam a emergir, impulsionando o debate sobre pirataria e a proporcionalidade das medidas técnicas. O impacto de tais ações sobre o setor e a verdadeira eficácia de bloqueios deste tipo permanecem em discussão.






