A memória —aquele componente que, apesar de sua falta de glamour, determina quantas abas do navegador podem ser abertas sem que o computador apresente queixas— se tornou um dos gargalos mais delicados da economia digital. Não por acaso, a explosão da Inteligência Artificial (IA) está mudando a prioridade das grandes fábricas de chips: onde antes predominavam os chips “padrão” para dispositivos móveis, laptops ou servidores, agora destaca-se um componente muito específico e mais lucrativo, a memória HBM (High Bandwidth Memory), projetada para alimentar aceleradores de IA com um fluxo massivo de dados.
Esse movimento gerou um efeito colateral incômodo: uma diminuição na capacidade de produção de memórias convencionais, como DDR5 ou NAND, aumentando a tensão nas cadeias de suprimento e esquentando o mercado. Nesse cenário, a China está se movimentando com uma ambição que não pode ser ignorada: suas duas grandes empresas do setor, ChangXin Memory Technologies (CXMT) na DRAM e Yangtze Memory Technologies (YMTC) na NAND, estão planejando uma expansão de capacidade que, se concretizada como esperado, pode alterar o equilíbrio de forças nos próximos anos.
CXMT está preparando uma nova instalação de DRAM em Xangai, com um tamanho estimado entre duas e três vezes o da sua base principal em Hefei. A construção e o equipamento devem começar em 2026, com a meta de iniciar a produção em grande escala em 2027. Simultaneamente, a YMTC, tradicionalmente associada à memória NAND, está erguendo sua terceira fábrica em Wuhan, com uma abordagem intrigante: aproximadamente metade da capacidade planejada será dedicada à DRAM, evidenciando uma mudança estratégica que reflete a crescente demanda por memória para IA e centros de dados.
A razão por trás desse movimento é tanto econômica quanto tecnológica. A HBM se tornou o “combustível premium” para os aceleradores de IA, sendo crítica para o treinamento e execução de modelos avançados. Nesse segmento, a SK hynix domina uma boa parte do fornecimento global, enquanto a Samsung e a Micron repartem o restante. Todavia, aumentar a produção de HBM não é uma simples mudança de interruptor, pois requer a realocação de investimentos, wafers e linhas produtivas que antes eram destinadas à memória convencional.
Esse estresse no setor tem levado a uma situação surpreendente: grandes fabricantes de PC, como HP, Dell, Acer e Asus, estão considerando pela primeira vez a memória chinesa como uma alternativa. De acordo com informações da Reuters, a HP já começou processos de homologação com produtos da CXMT e pode aumentar compras fora de mercados sensíveis, sinalizando que a pressão sobre a cadeia de suprimentos é um problema sério e duradouro.
Adicionalmente, a CXMT busca recursos financeiros para sustentar sua expansão. A empresa anunciou sua intenção de captar 29,5 bilhões de yuanes (cerca de 4,22 bilhões de dólares) em uma oferta pública inicial em Xangai, visando modernizar suas linhas de produção, melhorar a tecnologia e investir em novas gerações de memória. Por outro lado, a YMTC aposta em sua experiência em integração e empacotamento — fundamentos essenciais para aproximações com a HBM — que podem permitir avanços sem a necessidade de seguir exatamente a rota dos grandes fabricantes tradicionais.
No entanto, toda essa estratégia enfrenta um fator limitante: as restrições de exportação lideradas pelos Estados Unidos e seus aliados, que dificultam o acesso da China a equipamentos avançados. Apesar disso, o setor chinês tem progredido, utilizando ferramentas de gerações anteriores e um ecossistema local que busca preencher lacunas. Essa situação apresenta uma paradoxal realidade para o Ocidente: quanto mais rígidos os controles, mais estímulos são criados para acelerar a autossuficiência chinesa, enquanto relaxações nos controles poderiam aliviar a escassez global — em detrimento do avanço de um concorrente.
A expansão da CXMT e da YMTC não garante que, da noite para o dia, elas irão substituir gigantes como Samsung, SK hynix ou Micron, mas pode provocar impactos relevantes. Para a China, isso significa maior capacidade interna, reduzindo a dependência de importações. Para o mercado global, uma nova capacidade pode alterar a dinâmica de preços e intensificar a volatilidade em um setor já conhecido por seus ciclos implacáveis. E no campo geopolítico, cada avanço em memória é visto como um movimento estratégico.
Em resumo, as decisões que estão sendo tomadas neste momento não afetam apenas o preço da RAM nos próximos meses, mas também quem controlará um dos recursos mais críticos da era da Inteligência Artificial. E, nesse jogo, a China optou por acelerar.






